BRASÍLIA

João Costa

Inclusão racial nas empresas exige mudança de cultura, e não apenas de discurso, defende Claudio Gonçalves  

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Administrador afirma que oportunidades reais, lideranças comprometidas e valorização do potencial humano são os pilares para transformar diversidade em vantagem competitiva

 

A inclusão racial deixou de ser apenas um tema ligado à responsabilidade social para ocupar espaço nas estratégias de negócios das empresas. No entanto, para que a diversidade produza resultados concretos, é necessário que ela esteja presente na cultura organizacional e não apenas em campanhas institucionais.

Essa é a avaliação do administrador de empresas Claudio Gonçalves, fundador do Espaço da Audição, especialista em tecnologia, pós-graduado em Marketing, Controladoria e MBA em Inteligência Artificial. Para ele, a verdadeira inclusão acontece quando as organizações deixam de enxergar apenas perfis, rótulos e estatísticas e passam a reconhecer o potencial humano existente em cada profissional.

“A inclusão não pode ser apenas um compromisso escrito em um relatório. Ela precisa estar presente nas decisões diárias, na contratação, no desenvolvimento das pessoas e nas oportunidades de crescimento”, afirma.

Além da atuação empresarial, Claudio é idealizador e apresentador do podcast Arte de Vencer, projeto que abre espaço para histórias de superação de pessoas anônimas e personalidades de diferentes áreas. Com uma abordagem plural e inclusiva, o programa discute temas ligados ao empreendedorismo, educação, desenvolvimento humano e transformação social, reunindo convidados de diferentes origens e trajetórias.

Oportunidade acima dos rótulos

Segundo Claudio Gonçalves, ao longo de sua trajetória entrevistando profissionais e liderando equipes, uma frase sempre esteve presente entre candidatos em busca de emprego.

“Eu nunca ouvi alguém dizer que sonhava em participar de uma política de inclusão. O que sempre escutei foi algo muito mais simples: ‘Eu só quero uma oportunidade’.”

Para ele, essa afirmação resume o verdadeiro significado da inclusão.

“O papel da empresa é criar condições para que todas as pessoas possam demonstrar sua competência, aprender, evoluir e construir uma carreira.”

Na avaliação do administrador, reconhecer as diferenças não significa permitir que elas determinem o valor profissional de alguém. Pelo contrário, cada indivíduo carrega experiências, habilidades e perspectivas capazes de fortalecer qualquer ambiente de trabalho.

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Romper barreiras históricas

Claudio acredita que um dos principais desafios da inclusão racial ainda está nos modelos tradicionais de recrutamento, que durante décadas privilegiaram perfis semelhantes aos já existentes dentro das organizações.

“Muitas empresas acabaram formando equipes compostas por pessoas com trajetórias muito parecidas. Isso gera conforto, mas limita a inovação.”

Segundo ele, ampliar oportunidades não significa abandonar o mérito, mas oferecer condições para que mais pessoas possam demonstrar sua capacidade.

“Currículo abre portas. Mas dedicação, caráter, capacidade de aprender e atitude são características que constroem carreiras.”

Para o empresário, cabe às lideranças desenvolver processos seletivos mais justos e identificar talentos independentemente da origem social ou racial dos candidatos.

Diversidade impulsiona inovação

Na visão de Claudio Gonçalves, diversidade e inovação caminham lado a lado.

Equipes formadas por pessoas com diferentes histórias de vida ampliam a capacidade de análise, enriquecem o debate e tornam a tomada de decisões mais eficiente.

“Nenhuma pessoa enxerga o mundo inteiro pela própria janela.”

Segundo ele, muitas das decisões mais importantes de sua trajetória empresarial nasceram justamente da disposição em ouvir opiniões diferentes.

“As melhores soluções não surgiram porque todos concordavam comigo, mas porque alguém teve coragem de apresentar uma perspectiva completamente diferente.”

Para Claudio, quando existe respeito e liberdade para que todos contribuam, a inovação deixa de ser responsabilidade de um departamento específico e passa a fazer parte da cultura organizacional.

Lideranças que revelam talentos

Outro ponto destacado pelo empresário é a importância da liderança no fortalecimento da inclusão.

Ele diferencia gestores que apenas administram pessoas daqueles que realmente desenvolvem talentos.

“O líder não está ali para decidir quem merece crescer. Está ali para criar condições para que cada profissional descubra do que é capaz.”

Segundo Claudio, muitas pessoas passam anos no mercado de trabalho sem encontrar alguém que reconheça seu potencial, desperdiçando talentos que poderiam gerar resultados para as empresas.

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“A liderança precisa enxergar além do cargo ocupado hoje e visualizar aquilo que cada profissional pode se tornar no futuro.”

Inclusão se mede pelo pertencimento

Embora indicadores como contratação, promoção, retenção e presença de profissionais negros em cargos de liderança sejam importantes, Claudio acredita que o principal indicador da inclusão é o sentimento de pertencimento.

Para ele, basta responder a duas perguntas:

“O colaborador se sente respeitado? Ele acredita que pode crescer pelo seu trabalho?”

Segundo o administrador, esse sentimento aparece muito antes dos relatórios corporativos.

“Ele está nas conversas do dia a dia, na confiança entre equipes, no relacionamento com a liderança e no ambiente vivido diariamente.”

Na avaliação de Claudio, os indicadores apenas confirmam aquilo que a cultura organizacional já demonstra na prática.

Consumidores valorizam empresas coerentes

O especialista também observa que o comportamento dos consumidores mudou nos últimos anos.

Segundo ele, as pessoas passaram a escolher empresas não apenas pelos produtos ou serviços oferecidos, mas também pelos valores que representam.

“As novas gerações identificam rapidamente quando uma organização comunica aquilo que não pratica.”

Por isso, afirma que reputação não é construída por campanhas publicitárias, mas pela coerência entre discurso e ações.

“Uma empresa que respeita as pessoas, desenvolve talentos e cria oportunidades fortalece naturalmente sua marca.”

Ao concluir sua reflexão, Claudio resume aquilo que considera a essência da inclusão.

“As empresas que mais crescem não são necessariamente aquelas que encontram os melhores talentos, mas aquelas que conseguem revelar talentos que ninguém havia percebido. Inclusão é criar um ambiente onde qualquer pessoa, independentemente de sua origem, tenha a oportunidade de mostrar quem realmente é e tudo aquilo que pode se tornar.”

 

Sobre

Claudio Gonçalves é administrador de empresas, com pós-graduação em Marketing, Controladoria e MBA em Inteligência Artificial. Fundador do Espaço da Audição, atua na transformação da experiência do consumidor no segmento auditivo por meio de inovação, tecnologia, inclusão social e atendimento humanizado.

 

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ECONOMIA

Ingrediente brasileiro ganha espaço no mercado sem glúten dos Estados Unidos

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Três Coqueiros inicia processo de internacionalização e aposta na versatilidade do polvilho de fermentação natural para alcançar o mercado internacional.

Presente em receitas tradicionais como pão de queijo, biscoitos e bolos, o polvilho ainda é pouco conhecido nos Estados Unidos fora da comunidade brasileira. Em um mercado marcado pela procura por alimentos sem glúten, ingredientes naturais e alternativas à farinha de trigo, a Três Coqueiros identificou uma oportunidade para apresentar ao consumidor norte-americano uma matéria-prima que faz parte da cultura alimentar do Brasil há gerações.

Com mais de 30 anos de atuação, a empresa catarinense iniciou seu processo de internacionalização sob a liderança da CEO Mariane Domingos. A estratégia busca ampliar a presença do polvilho no exterior, mostrando que o ingrediente pode ir além das receitas brasileiras e ser incorporado a diferentes preparações.

“Não queremos apenas exportar polvilho. Queremos mostrar ao mundo o potencial da mandioca brasileira. Acreditamos que ela será uma das matérias-primas mais importantes para a alimentação do futuro, especialmente em produtos sem glúten, ingredientes funcionais e alimentos mais naturais”, afirma Mariane. Pedro Domingos, irmão de Mariane, atua como diretor financeiro e participa da estratégia de crescimento da companhia.

Estratégia começa pelo consumidor brasileiro

A entrada da Três Coqueiros nos Estados Unidos é conduzida pela World Bridge Brands (WBB), empresa especializada no desenvolvimento de marcas brasileiras no mercado norte-americano e que trabalha com negócios como Chilli Beans e Natura.

Os sócios Nathali Oliveira e Paulo Argollo estão à frente do projeto, que envolve o posicionamento da marca, a adaptação de sua apresentação para o novo mercado e a negociação com diferentes canais de varejo.

A primeira etapa da estratégia busca alcançar os brasileiros que vivem no país e já conhecem o polvilho. Esse público representa uma base inicial de consumidores familiarizados com o ingrediente e com receitas nas quais ele é utilizado.

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Ao mesmo tempo, a WBB pretende ampliar o alcance do produto entre norte-americanos que procuram opções naturalmente livres de glúten, ingredientes de origem vegetal e novas possibilidades para substituir a farinha de trigo.

“O público brasileiro representa uma porta de entrada importante, porque já conhece o produto e mantém uma relação afetiva com receitas feitas à base de polvilho. Mas existe um mercado muito maior entre consumidores que procuram alimentos gluten-free, ingredientes naturais e novas possibilidades para a alimentação”, afirmam os sócios da WBB.

O trabalho também inclui uma etapa de educação do consumidor. A proposta é explicar a origem do polvilho, suas formas de utilização e as características que o diferenciam de outros amidos encontrados no mercado americano.

Produto ficou fora da tarifa adicional

Outro fator considerado favorável para a expansão é que o polvilho não foi atingido pela tarifa adicional imposta pelo governo de Donald Trump a determinados produtos brasileiros.

A fécula de mandioca está entre as exceções previstas na medida, o que reduz o impacto comercial da nova taxação sobre a entrada do ingrediente nos Estados Unidos.

Para a Três Coqueiros, o cenário cria condições mais favoráveis para iniciar a prospecção de canais de venda e apresentar o produto a um público que vem ampliando o interesse por alimentos sem glúten e ingredientes com origem identificável.

Fermentação natural diferencia o produto

A estratégia de internacionalização está apoiada no método de produção adotado pela empresa. A Três Coqueiros adquire a mandioca de pequenos produtores locais, fortalecendo uma cadeia regional que acompanha o negócio desde sua origem.

Depois do processamento da raiz, o amido permanece em tanques por aproximadamente quatro meses, período em que ocorre a fermentação natural. Em seguida, o polvilho é seco ao sol. O processo respeita o tempo necessário para que o produto desenvolva suas características de qualidade, funcionalidade e sabor.

A escolha diferencia a Três Coqueiros de métodos industriais que aceleram ou modificam o amido com o uso de substâncias químicas. Dependendo da finalidade do produto, esses processos podem utilizar elementos como cloreto de cálcio, anidrido acético, ácido clorídrico concentrado, peróxido de hidrogênio a 35%, sulfato de cobre e soda cáustica a 4%.

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A empresa, por sua vez, preserva a fermentação biológica natural, sem recorrer à aceleração química desse ciclo.

“Nosso polvilho é produzido respeitando o tempo da fermentação e cada etapa do processo. Não existe um ingrediente capaz de substituir esse tempo. É mandioca, fermentação natural e secagem ao sol. Esse cuidado faz toda a diferença na qualidade do produto”, explica Mariane.

A Três Coqueiros produz cerca de 1.500 toneladas de polvilho por ano.

Além de manter o método tradicional, a companhia investe em análises laboratoriais para compreender melhor as propriedades do polvilho fermentado e estudar novas aplicações para a mandioca. Os planos incluem o desenvolvimento de ingredientes e soluções alimentícias que combinem praticidade, versatilidade e uma composição mais simples.

Mariane Domingos. Foto: Divulgação.

Mandioca brasileira como ingrediente do futuro

Para a CEO, a chegada aos Estados Unidos pode abrir caminho não apenas para a empresa, mas também para uma nova percepção internacional sobre a mandioca brasileira.

Além de estar associada à identidade alimentar do país, a raiz pode ser utilizada no desenvolvimento de diferentes produtos, atendendo a consumidores interessados em alternativas sem glúten e alimentos produzidos com processos mais naturais.

A proposta da Três Coqueiros é combinar essa demanda contemporânea com um conhecimento transmitido dentro da família ao longo de gerações e com a valorização dos pequenos agricultores responsáveis pelo fornecimento da matéria-prima.

“Queremos que, quando alguém pensar em mandioca de alta qualidade, pense no Brasil. E, quando pensar no Brasil, conheça a Três Coqueiros. Nosso objetivo é unir tradição, qualidade e inovação para construir uma marca brasileira reconhecida internacionalmente”, conclui Mariane.

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