A Arte de Viralizar
Você confiaria em alguém que não existe? Uma reflexão sobre a ascensão de Marisa Maiô e o futuro da influência na era da IA
Por Ígor Beltrão, co-fundador e diretor artístico da Viraliza, maior agência de marketing de influência do Nordeste brasileiro
Marisa Maiô apareceu na internet há uma semana e já tem mais influência do que muita gente que passou anos tentando construir uma. O detalhe? Ela não existe.
Criada por inteligência artificial pelo talentoso roteirista Raony Phillips (o mesmo de Girls in the House), Marisa é uma apresentadora de talk-show com estética anos 90, humor ácido e vídeos tão bem produzidos que muita gente jurou que era real. Em poucos dias, Marisa ganhou matéria no Fantástico, memes, threads virais e até campanha com a Magalu.
Tudo isso em menos de sete dias de existência pública.
Esse fenômeno nos leva a uma pergunta incômoda: o que faz alguém ser um influenciador? Durante anos, acreditamos que era preciso carisma, coragem, vulnerabilidade, rotina compartilhada, exposição, autenticidade. Mas com Marisa, estamos vendo nascer um novo tipo de influência: a programada.
Não baseada em vivência, mas em engenharia de prompt.
Não em experiência, mas em capacidade de combinar roteiro, timing e estética viral.
O artista virtual é um engenheiro. O real é um corpo em risco.
Hoje, pra você se tornar um influenciador, precisa colocar a cara no mundo. Apanhar, aprender, se expor. Influência sempre foi sinônimo de presença — não só digital, mas emocional.
Já o criador de um influenciador virtual precisa, na verdade, dominar:
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escrita de prompt,
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lógica de engajamento,
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referências culturais e estéticas,
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e conhecimento técnico pra rodar modelos como o Veo 3.
Enquanto isso, o influenciador humano é… humano. Erra, chora, amadurece. Junto a seu público e na troca, na interação com ele. É isso que, até hoje, construiu confiança e identificação real.
Não queremos discutir aqui o talento do roteirista que aproveitou estruturas de programas pré-existentes e, numa combinação de falas e situações absurdas jamais ditas ou passíveis de serem vividas por uma pessoa de carne e osso, conquistou audiência. É preciso destacar, inclusive, que sem seu repertório, suas histórias, as referências que imprime na personagem, talvez parte desse sucesso não aconteceria.
A questão aqui é: qual tipo de credibilidade Marisa Maiô pode passar a uma marca? Qual fala pode não ser apenas deboche, e sim uma troca de informação e ponto de vista baseado na confiança em sua personalidade? Se isso será construído, somente o tempo dirá.
Na era da abundância artificial, cria-se um paradoxo da confiança.
Segundo dados da DailyAI (2024), influenciadores virtuais já superam os humanos em engajamento em nichos como tech, moda e games. Mas aí entra a dissonância: 71% dos consumidores ainda preferem histórias humanas quando querem confiar em alguém real.
Estamos entrando numa era de abundância de conteúdo. De vídeos hiperotimizados por IA. E, paradoxalmente, talvez os únicos ativos não-clonáveis que restem sejam:
➡️ a comunidade real
➡️ a marca pessoal construída com afeto e verdade
A pessoa por detrás de Marisa Maiô trabalhou inúmeras vezes junto à IA — que é uma realidade — tentando tornar aquelas situações mais críveis, seja do ponto de vista da forma, seja do conteúdo. Quem é real? O roteirista por detrás dela, com CPF, história, referências. Tal qual um influenciador.
Li um comentário na internet que me marcou:
“Eu não sei mais o que é real.”
Essa talvez seja a grande provocação: se a Inteligência Artificial já é capaz de viralizar com vídeos curtos, quanto tempo falta pra termos miniprogramas, talk shows completos, documentários com personagens que nunca existiram, mas falam diretamente com você?
É inevitável que o mercado de influência vá mudar.
Mas uma coisa é certa:
em um mundo artificialmente perfeito, o imperfeito vira diferencial competitivo.
Foto: Tracklist
A Arte de Viralizar
Do “alcance alugado” à Propriedade Intelectual: a nova governança da Creator Economy
Published
2 semanas atráson
5 de maio de 2026
A economia criativa atravessa uma crise de identidade. Enquanto a IA mimetiza fórmulas de engajamento, o diferencial competitivo migra da vitrine para a infraestrutura de negócios. O jogo estratégico agora é sobre quem detém autenticidade radical.
Tenho observado que o marketing de influência atravessa, em 2026, sua mais severa crise de identidade. Após uma década de crescimento pautado em métricas de vaidade e alcance massivo, o setor esbarra em um teto estrutural: a comoditização do conteúdo.
Com a Inteligência Artificial (IA) generativa replicando fórmulas de engajamento e edições dinâmicas em escala industrial, o diferencial competitivo deslocou-se. O risco para marcas e líderes é claro: sem uma visão estratégica de longo prazo, o criador de conteúdo vira apenas uma commodity substituível por algoritmos.
Este cenário, que dominou as discussões de inovação no SXSW 2026, sinaliza uma mudança de paradigma urgente. O criador de conteúdo como simples “vitrine” faliu. Em seu lugar, emerge o criador como infraestrutura de negócios e detentor de Propriedade Intelectual (IP).
A armadilha da audiência alugada
A urgência dessa transição é validada por um afunilamento do capital. Enquanto a Goldman Sachs Research projeta que a economia criativa movimentará US$ 480 bilhões até 2027, o valor real está migrando da “audiência alugada”, aquela que pertence exclusivamente às plataformas e seus algoritmos, para a autonomia da narrativa.
A IA já sentou à mesa da criação e ela é infinitamente mais eficiente na execução técnica. Se uma marca ou um criador se limita a seguir padrões de algoritmo, está competindo com uma máquina de custo zero.
É aqui que entra o conceito do Humano Premium. O que o código ainda não mimetiza é o repertório cultural, o erro autêntico, a opinião ácida e o contexto histórico. Onde a IA entrega perfeição técnica, o humano entrega conexão emocional. Na nova economia, o “perfeito” virou commodity; o “real” virou o novo luxo.
De fãs para comunidades: o ROI da relevância
Essa mudança de tom reflete a saturação do modelo de interrupção. Dados do relatório State of the Creator Economy indicam que a sustentabilidade financeira migrou para modelos de comunidades proprietárias, com canais de monetização direta.
Para a gestão de marcas, isso significa que o alcance abre a porta, mas é a relevância que a mantém aberta. O criador deixou de ser apenas um canal de mídia para virar uma camada logística de negócios. O desafio para os CMOs e CEOs é parar de comprar “espaço em posts” e começar a investir na co-criação de universos narrativos que sobrevivam às mudanças de humor das Big Techs.
O playbook da liderança na era da pós-automação
Para líderes e gestores que buscam governar a influência em 2026, a estratégia exige quatro pilares fundamentais:
1. Abandono das fórmulas rígidas: Conteúdos com excesso de zelo estético ou roteiros engessados são lidos pelo público como ruído. A imperfeição intencional e o improviso real são os novos drivers de confiança e conversão.
2. Construção de IP Coletivo: A marca e o criador devem co-criar ativos proprietários. Quem não for dono da própria narrativa será refém eterno das mudanças discricionárias das plataformas.
3. Valorização do ócio criativo: A ciência da criatividade prova que a “produtividade tóxica” destrói a inovação. Criadores e estrategistas precisam de tempo de desconexão para gerar insights complexos que a IA ainda não processa.
4. Creator as a Founder: O influenciador de sucesso deve ser gerido sob a lógica de uma startup. Ele deve deter seus próprios produtos e, principalmente, a governança sobre seus dados.
Vencer na economia criativa atual não é mais sobre quem posta mais, mas sobre quem consegue transformar visão em linguagem e audiência em um ativo de valor sustentável. A pergunta para o líder de hoje não é quanto alcance ele pode comprar, mas quanto valor real sua narrativa consegue reter.
Igor Beltrão
Diretor Artístico da Viraliza Entretenimento, especialista em estratégia de conteúdo e novos modelos de monetização na economia da influência. Com olhar focado na intersecção entre criatividade e governança de dados, lidera a transformação de audiências passivas em ativos proprietários de alto valor.

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