BRASÍLIA

Feliz Hoje!

Quando uma imagem guarda mais do que um instante

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Quando uma imagem guarda mais do que um instante

Hoje é Dia Mundial da Fotografia. Eu poderia falar sobre câmeras, lentes, enquadramentos, luz, composição ou técnica. Mas, quando penso em fotografia, o que me vem primeiro não é a máquina. É o olhar.

A fotografia entrou na minha vida como hobby e, com o tempo, tornou-se uma das formas mais sinceras que encontrei para me expressar artisticamente. Fotografo porque algumas coisas me atravessam antes mesmo que eu consiga transformá-las em palavras. Uma paisagem, uma porta antiga, uma janela, um céu carregado de nuvens, a arquitetura de uma cidade, uma sombra sobre o chão. Há momentos em que alguma coisa simplesmente me chama.

E eu paro… Olho e Fotografo.

Não fotografo apenas com a câmera. Fotografo com a minha cultura, com a minha história, com as minhas vivências, com a minha memória e com tudo aquilo que, ao longo dos anos, ensinou o meu olhar a perceber o mundo. Fotografo com a minha alma.

Talvez por isso duas pessoas possam estar diante da mesma paisagem e voltar para casa com fotografias completamente diferentes. A câmera registra o que está diante dos olhos, mas é o olhar que escolhe o que merece permanecer.

Nas fotografias que escolhi para acompanhar este texto, há lugares, arquiteturas e paisagens de momentos diferentes da minha vida. Mas existe algo que as aproxima: em todas elas, eu estava tentando guardar uma sensação. Alguma coisa que aconteceu entre mim e aquele instante.

Fotos: Giorgia Barreto

Gosto especialmente de fotografar portas e janelas. Elas me despertam uma curiosidade quase infantil. Uma porta fechada guarda uma história que não conheço. Uma janela aberta revela apenas uma parte do que existe além dela. Quem viveu aqui? Quem passou por esta porta? O que aconteceu atrás desta janela? O que permanece quando as pessoas vão embora?

Há uma vida que continua existindo mesmo quando já não podemos vê-la.

Também gosto de fotografar o céu. Talvez porque ele nunca se repita. As nuvens mudam, a luz muda, o azul muda. Uma paisagem conhecida pode adquirir outra aparência em poucos minutos. Basta uma mudança de luz para que aquilo que vimos tantas vezes pareça novo.

E é justamente isso que a fotografia me ensina: olhar novamente.

Passamos pelos mesmos lugares tantas vezes que deixamos de percebê-los. O cotidiano tem essa capacidade de tornar invisível aquilo que está sempre diante de nós. Fotografar interrompe um pouco essa pressa. Obriga-me a reparar na luz atravessando uma fachada, na árvore que nasceu em uma fresta, no desenho de uma calçada, na relação entre uma construção e o céu.

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É um exercício de presença.

Tenho fotografado Brasília assim. Não apenas como a cidade em que vivo, mas como uma paisagem que continuo descobrindo. Uma cidade de grandes espaços, linhas, curvas e arquitetura monumental, mas que também guarda pequenas delicadezas. Uma porta. Uma sombra. Uma janela. Uma árvore. Um reflexo. Uma mudança de luz.

É nessas pequenas coisas que encontro muita da poesia que procuro.

Porque a fotografia, para mim, não está necessariamente naquilo que é grandioso. Está na capacidade de transformar um instante cotidiano em experiência.

E fotografia também é memória.

Algumas imagens me devolvem a lugares onde estive muitos anos atrás. Outras me lembram de quem eu era quando as fiz. Quando olho para determinadas fotografias, não vejo apenas uma paisagem. Vejo uma Giorgia de outra época, com outras perguntas, outros desejos, outras inquietações.

É bonito perceber que também envelhecemos através das imagens.

Aos 50 anos, olho para algumas das minhas fotografias e percebo que elas contam uma história que vai além dos lugares registrados. Contam um pouco sobre a mulher que aprendeu a observar o mundo dessa maneira. Sobre aquilo que me emociona. Sobre aquilo que considero bonito. Sobre o que escolho guardar.

Porque fotografar também é escolher o que merece permanecer.

Isso não significa que aquilo que não fotografamos seja menos importante. Existem momentos que pertencem apenas à memória. Há experiências que não precisam de registro. Há imagens que ficam dentro de nós e nunca chegam a uma tela.

Mas, quando levanto a câmera diante de alguma coisa, existe uma pequena declaração naquele gesto:

Eu vi.
Eu estava aqui.
Isso me tocou.

E talvez seja esse o maior presente que a fotografia me oferece. Ela me lembra que a beleza não precisa gritar para ser percebida. Que existem sutilezas acontecendo o tempo inteiro ao nosso redor. Que uma cidade pode ser poesia, que uma parede antiga pode guardar histórias, que uma nuvem pode transformar completamente uma paisagem e que uma porta pode falar sobre ausência sem dizer uma única palavra.

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Fotografar é, para mim, uma maneira de conversar com o mundo sem precisar explicar tudo.

É linguagem, memória e presença.

É também pertencimento. Quando fotografo um lugar, não estou apenas registrando aquele espaço. Estou dizendo que, de alguma maneira, ele passou por mim.

E eu passei por ele.

Hoje, no Dia Mundial da Fotografia, quero celebrar menos a câmera e mais a possibilidade de continuar olhando. O olhar que ainda se surpreende. Que encontra beleza onde ninguém está procurando. Que percebe uma pequena história em uma porta antiga. Que olha para o céu antes de olhar para a tela do celular. Que reconhece uma paisagem conhecida e, ainda assim, consegue enxergá-la de outra maneira.

Porque fotografar é uma forma de estar diante do mundo com atenção suficiente para perceber aquilo que poderia passar despercebido.

Estas fotografias são um pouco disso. Não são apenas imagens dos lugares por onde passei. São pedaços do modo como eu os enxerguei. Pedaços da minha história, da minha memória, da minha sensibilidade e da minha maneira de encontrar poesia no mundo.

Eu não fotografo para mostrar apenas o que vi.

Fotografo para compartilhar um pouco de como o meu olhar vê.

E, se alguma dessas imagens despertar em você uma memória, uma sensação, uma saudade ou simplesmente alguns segundos de beleza, então a fotografia terá feito aquilo que mais gosto que ela faça: terá criado uma ponte entre dois olhares que nem sequer precisavam se conhecer.

No fim, é isso que continuo procurando quando fotografo.

Não guardar o mundo inteiro… Apenas prestar atenção.

Parar diante de alguma coisa que me toca e dizer, em silêncio: eu vi. E, por alguns segundos, isso foi suficiente.

Por Giorgia Barreto
Educadora, comunicadora, artista visual e terapeuta

Porque fotografar, para mim, é mais do que guardar uma imagem. É prestar atenção à vida e reconhecer a beleza do mundo, aquilo que a minha alma não quis deixar passar.

Instagram: https://www.instagram.com/felizhojecoluna

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O Escape Tropical: quando o acessório vira protagonista

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Desfile Zinc Complements

Na última segunda-feira, 14 de setembro, o Metrópoles Catwalk ganhou cores, movimento e uma boa dose de brasilidade. Na passarela da Zinc Complements, o tropical apareceu muito além da estética: surgiu como memória, afeto, identidade e uma maneira de contar histórias por meio da moda. Celebrando 37 anos de trajetória, a fundadora e estilista Flávia Oliveira apresentou uma coleção em que a roupa ocupa um lugar diferente na narrativa. Em vez de ser a protagonista absoluta, transforma-se em cenário, moldura e suporte para que os acessórios assumam o centro da cena.

Essa inversão é uma das características mais interessantes da coleção, pois, estamos acostumados a pensar no acessório como aquele último detalhe acrescentado ao look, na proposta da Zinc, acontece justamente o contrário: é a roupa que existe para acolher o acessório e permitir que ele conte sua própria história. A partir dessa perspectiva, o vestir deixa de ser apenas uma composição visual e passa a funcionar como uma espécie de paisagem, construída para destacar aquilo que normalmente ocupa um lugar secundário.

Inspirada no imaginário vibrante de Carmen Miranda, a apresentação trouxe frutas, cores quentes, laços, saias, volumes e referências tropicais, sem abrir mão de uma atmosfera romântica. O resultado foi uma espécie de escapismo brasileiro, alegre e sofisticado, que convidava o olhar a percorrer cada detalhe. Havia exuberância, mas também delicadeza; havia referências muito reconhecíveis da nossa cultura, mas reinterpretadas de maneira contemporânea.

Giorgia Barreto e Edu AmorinTive a honra e o prazer de ter ao meu lado um parceiro muito especial, meu querido e maravilhoso Edu Amorim, designer de moda, com quem compartilhei não apenas o olhar sobre a passarela, mas também a experiência de estar ali, observando, conversando e descobrindo as histórias por trás da coleção. Juntos conversamos com Flávia nos bastidores do evento. Entre uma conversa e outra, fomos percebendo que, por trás das cores, das formas e dos acessórios exuberantes, havia uma história sobre criação, identidade e sobre a própria maneira de enxergar a moda.

Radar DF: Flávia, qual foi a grande inspiração por trás dessa coleção e como a marca traduz esse DNA tão exclusivo para a passarela, sabendo que os acessórios ocupam o centro da direção criativa?

Flávia Oliveira: A gente começou a trabalhar nisso desde o ano passado, mergulhando muito nas referências de Carmen Miranda. Quisemos trazer esse toque forte de brasilidade e tropicalismo, apostando nas frutas, mas equilibrando com um romantismo sutil através das saias e dos laços. Na Zinc, a gente enxerga o contrário do convencional: para nós, a roupa existe para complementar o acessório. Enquanto o mercado costuma ver o adorno como detalhe final, nós fazemos o oposto; o vestuário é o cenário que acolhe a verdadeira estrela da coleção.

A fala de Flávia ajuda a olhar para o desfile para além daquilo que aparece imediatamente na passarela. Não se trata apenas de uma coleção colorida ou de uma homenagem ao tropicalismo, mas de uma escolha consciente de deslocar o olhar para aquilo que normalmente aparece como complemento e transformá-lo no ponto de partida da narrativa. A roupa passa a criar as condições para que o acessório se manifeste, ganhe presença e estabeleça um diálogo próprio com o corpo.

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E que diálogo. Os maxi colares surgiram como verdadeiras esculturas corporais. Múltiplas voltas, contas, esferas e diferentes texturas criaram formas exuberantes, quase orgânicas, evocando frutas tropicais, elementos da natureza e o calor das cores brasileiras. Amarelos solares, vermelhos intensos e brancos luminosos dividiram espaço com amarrações, volumes, padronagens clássicas de vichy e listras náuticas, criando uma composição visual rica em contrastes e referências.

A coleção brinca com proporções, mas também com lembranças. Há algo de familiar nessas cores, nessas frutas, nesses materiais e nesse imaginário tropical. É uma memória visual brasileira que reaparece renovada, mas que ainda guarda a capacidade de despertar sensações muito conhecidas. Algumas roupas têm esse poder: antes mesmo de compreendermos racionalmente aquilo que estamos vendo, elas nos conduzem para algum lugar. Podem lembrar uma festa, uma fotografia antiga, uma viagem, um verão ou simplesmente uma sensação de alegria que parecia esquecida.

Radar DF: O desfile teve um momento alto e muito aguardado com a participação da Yasmin Brunet fechando a apresentação. Como foi essa escolha e a definição do visual dela?

Flávia Oliveira: Estar em um evento já tão consolidado em Brasília e contar com personalidades para abrilhantar a passarela é sempre especial. No ano passado fechamos com a Bruna e com a mãe dela, e agora encerramos com a Yasmin, o que foi pura alegria para a nossa equipe. Para ela, pensamos em algo mais fluido e rendado, que conversasse perfeitamente com sua personalidade. Misturamos referências meio boho com o nosso toque tropical, resultando em uma peça que amarrou e complementou toda a narrativa do desfile.

Yasmin encerrou a apresentação como parte dessa mesma história. O visual fluido e rendado, atravessado por referências boho e pelo tropicalismo característico da Zinc, fechou o percurso sem romper com a narrativa construída ao longo do desfile. A presença dela funcionou como uma espécie de conclusão visual para uma coleção que foi, desde o início, construída a partir do diálogo entre roupa, acessórios, corpo e memória.

O escapismo também apareceu na chapelaria e nos materiais. Chapéus de aba larga em palha natural e bolsas de mão trançadas trouxeram à passarela uma dimensão artesanal que conversa diretamente com a ideia de identidade cultural. Esses elementos ajudaram a construir uma atmosfera que remete ao verão, à natureza e ao imaginário tropical, mas sem transformar a brasilidade em uma caricatura. A referência aparece justamente porque está incorporada aos materiais, às formas e às escolhas da coleção.

É bonito perceber quando o artesanal não aparece apenas como tendência, mas como linguagem. Quando a matéria carrega uma história, um território e uma memória, aquilo que parece simples pode ganhar uma força muito particular. A palha, as contas, os tecidos e as tramas deixam de ser apenas materiais e passam a participar da construção de uma identidade, conectando a roupa a algo que existe para além dela.

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Em uma cidade como Brasília, onde tantas identidades se encontram, se misturam e se reinventam, ver a moda produzida no Distrito Federal ocupando uma passarela como o Metrópoles Catwalk também é uma forma de olhar para a própria cidade. Brasília tem muitas histórias para contar, e a moda é uma delas. São histórias construídas por pessoas que criam, empreendem, experimentam e encontram maneiras próprias de transformar referências culturais em linguagem contemporânea.

Com 37 anos de trajetória, a Zinc Complements carrega uma história construída na capital federal, entre alfaiataria, criação e afeto. A coleção apresentada por Flávia Oliveira reafirma a existência de uma identidade brasiliense que também pode ser percebida através da roupa. Uma identidade que não precisa ser rígida ou previsível e que pode reunir, na mesma narrativa, exuberância, romantismo, artesanato, cor e contemporaneidade.

Pode ter frutas, laços, palha, contas, rendas e maxi colares. Pode ser tropical sem ser óbvia e sofisticada sem deixar de ser afetiva. Mais do que acompanhar tendências, a coleção parece propor uma relação diferente com o vestir: uma relação em que aquilo que usamos também pode carregar lembranças, referências culturais e sentimentos. Afinal, a moda não acontece apenas sobre o corpo. Ela também acontece na memória de quem olha, de quem veste e de quem cria.

No fim, o verdadeiro escape tropical proposto pela Zinc parece estar justamente nessa possibilidade de desacelerar e olhar para os detalhes. Em meio à pressa cotidiana, uma coleção pode nos lembrar que vestir também é contar histórias sobre lugares, memórias, desejos e pertencimentos. Um acessório pode carregar uma lembrança, uma cor pode nos conduzir de volta a um momento especial e uma textura pode despertar uma sensação que nem sabíamos que ainda guardávamos.

Talvez seja essa a beleza de uma coleção como essa: ela não precisa escolher entre moda e memória, entre sofisticação e afeto, entre tradição e contemporaneidade. Pode transitar entre todos esses lugares e encontrar justamente nessa mistura a sua identidade. E quando o acessório deixa de ser apenas detalhe para ocupar o centro da narrativa, o vestir ganha outra dimensão. Deixa de ser apenas aparência e passa a ser também expressão, memória e afeto.

No meio de tantas cores, formas e referências, a Zinc nos lembra que existe beleza quando a moda consegue fazer mais do que vestir. Quando consegue nos fazer sentir, lembrar e, por alguns instantes, olhar para o mundo com um pouco mais de encanto.

Veja todas as fotos do evento: https://iff.shootproof.com/gallery/catwalkmane/album/23847268

Por Giorgia Barreto e Edu Amorim

Entre cores, formas e afetos, encontramos nas histórias de Brasília pequenos motivos para celebrar o presente.

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