BRASÍLIA

Feliz Hoje...

Há livros que a gente lê. E há livros que encontram a gente.

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Tudo é Rio

Você já terminou um livro e ficou alguns dias pensando nele? Não necessariamente porque a história fosse extraordinária ou porque tivesse acontecido alguma coisa surpreendente, mas porque alguma coisa permaneceu. Uma personagem, uma frase, uma sensação difícil de explicar. Às vezes, nem sabemos exatamente o que aquela leitura despertou, mas percebemos que, depois dela, alguma coisa em nós parece ter mudado de lugar.

Acho que esse é um dos mistérios mais bonitos da literatura. Nós abrimos um livro acreditando que vamos conhecer uma história e, sem perceber, acabamos encontrando um pouco de nós mesmos dentro dela. Um personagem pode nos lembrar alguém que amamos, uma situação pode nos devolver uma memória antiga, uma escolha feita por alguém fictício pode nos fazer pensar sobre escolhas que fizemos na vida real. Há histórias que nos entretêm, histórias que nos emocionam e há aquelas que, de alguma maneira, nos atravessam.

Foi assim que Tudo é Rio, de Carla Madeira, chegou à minha vida. Não foi apenas uma leitura. Foi um daqueles encontros literários que nos atravessam silenciosamente e permanecem depois que fechamos o livro. A história me tocou profundamente, despertou sentimentos, inquietações e perguntas que continuaram comigo muito além da última página. E talvez seja justamente isso que eu mais gosto na literatura: quando uma história deixa de pertencer apenas ao livro e passa a fazer parte, de alguma maneira, de quem a leu.

Não quero contar a história para você. Há livros que merecem ser descobertos aos poucos, permitindo que cada leitor encontre seus próprios caminhos dentro da narrativa. Quero falar, antes, sobre aquilo que uma obra como essa pode provocar quando nos deixamos realmente entrar nela.

Tudo é Rio é uma história marcada por sentimentos intensos, relações humanas, desejos, perdas, culpa, amor e contradições. E talvez uma das coisas mais interessantes seja justamente a dificuldade de colocar seus personagens em lugares confortáveis. Eles não cabem facilmente nas categorias que costumamos criar para compreender as pessoas. Não são simplesmente bons ou maus, certos ou errados. São humanos, com suas escolhas, suas feridas, seus desejos e suas consequências.

E isso pode nos incomodar.

Mas talvez a arte não precise sempre nos deixar confortáveis.

Estamos acostumados a procurar histórias que confirmem aquilo que já pensamos. Gostamos de reconhecer os bons, identificar os vilões e saber de que lado devemos ficar. A literatura, quando é realmente capaz de nos tocar, às vezes faz o contrário. Ela embaralha nossas certezas e nos coloca diante da complexidade humana.

É desconfortável perceber que uma pessoa pode carregar amor e violência, generosidade e egoísmo, coragem e medo. Também é desconfortável reconhecer que nós mesmos somos feitos dessas contradições.

Talvez seja por isso que alguns livros funcionem como espelhos. Não porque mostrem necessariamente aquilo que gostaríamos de enxergar, mas porque revelam alguma coisa que estava escondida atrás das nossas certezas.

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E há uma beleza particular nisso.

Quando lemos sobre alguém que sente, sofre, deseja ou erra, talvez estejamos, sem perceber, experimentando uma pequena aproximação com aquilo que existe dentro de nós. A literatura nos permite olhar para sentimentos difíceis sem precisar vivê-los exatamente da mesma maneira. Podemos sentir compaixão por alguém que, em outra circunstância, julgaríamos. Podemos compreender uma dor sem concordar com as escolhas feitas a partir dela. Podemos reconhecer uma fragilidade e perceber que ela não é tão distante da nossa quanto imaginávamos.

Isso não significa justificar comportamentos ou abandonar nossos valores. Significa compreender que a experiência humana raramente é simples.

Talvez seja justamente aí que a literatura encontre uma de suas maiores forças: ela amplia nossa capacidade de olhar.

Olhar para o outro, mas também para nós mesmos.

E isso me faz pensar em uma coisa que acontece com os livros ao longo da nossa vida. Um livro que lemos aos vinte anos não é necessariamente o mesmo livro que encontraremos aos quarenta ou aos cinquenta. As páginas continuam iguais, mas nós não somos mais os mesmos.

A vida acrescenta camadas à leitura.

Depois de algumas perdas, entendemos determinadas palavras de outra maneira. Depois de amar, reconhecemos sentimentos que antes pareciam distantes. Depois de errar, talvez sejamos menos rápidos para julgar o erro dos outros. Depois de algumas despedidas, determinadas histórias passam a doer de uma maneira diferente.

É por isso que gosto tanto da ideia de reler.

Reler um livro é reencontrar uma história com uma versão diferente de nós mesmos. E, às vezes, é quase como abrir uma gaveta antiga e descobrir quem éramos naquela época. Algumas coisas continuam fazendo sentido. Outras já não nos representam. Há personagens que antes amávamos e que hoje enxergamos de outra maneira. Há frases que passaram despercebidas e que, anos depois, parecem ter esperado todo esse tempo para serem compreendidas. Talvez isso também seja amadurecer.

Perceber que nem sempre precisamos mudar a história para descobrir um novo significado. Às vezes, basta mudarmos o olhar.

O próprio título Tudo é Rio me faz pensar nessa ideia de movimento. A vida também não permanece no mesmo lugar. Nós mudamos, as relações mudam, os sentimentos mudam, as pessoas chegam e partem. Algumas dores se transformam em memória. Algumas memórias deixam de doer. Alguns sonhos perdem o sentido, enquanto outros nascem quando já imaginávamos que não haveria mais espaço para eles.

Tudo corre… Tudo se transforma.

E talvez nós passemos boa parte da vida tentando segurar aquilo que já está seguindo seu curso.

Por isso, uma história como essa pode nos fazer pensar não apenas sobre os personagens, mas sobre aquilo que fazemos com aquilo que sentimos. Sobre as marcas que carregamos, sobre as escolhas que fazemos quando estamos feridos, sobre o amor e seus limites, sobre a capacidade ou a dificuldade de perdoar e, principalmente, sobre a pessoa que nos tornamos depois de tudo aquilo que vivemos.

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Não acredito que a literatura tenha obrigação de nos ensinar alguma coisa. Um livro não precisa terminar com uma lição de moral. Às vezes, basta que ele nos faça parar.

Parar diante de uma frase… diante de uma personagem… de uma emoção. Parar diante de nós mesmos.

Em uma vida tão cheia de pressa, talvez isso já seja muito.

Temos o hábito de consumir tudo rapidamente. Notícias, vídeos, músicas, imagens e até livros. Quantas vezes nos orgulhamos da quantidade de páginas que conseguimos ler em uma semana, sem perguntar o que realmente ficou conosco depois que fechamos o livro? Talvez exista uma diferença importante entre simplesmente terminar uma leitura e permitir que ela permaneça dentro de nós.

Tudo é Rio é uma leitura para ser feita sem pressa.

Não necessariamente porque seja difícil, mas porque algumas histórias precisam de espaço para respirar dentro da gente.

E talvez seja esse o tipo de experiência que eu gostaria de trazer para a Feliz Hoje quando falarmos de literatura e arte. Não apenas indicar obras, mas conversar sobre aquilo que elas despertam em nós.

Porque cultura também é isso.

É ampliar o repertório, conhecer outras histórias, entrar em contato com outras sensibilidades e, de vez em quando, perceber que uma obra criada por outra pessoa conseguiu dizer alguma coisa que nós mesmos ainda não sabíamos como dizer.

Talvez você leia Tudo é Rio e tenha uma experiência completamente diferente da minha. E isso é maravilhoso. A arte não precisa produzir a mesma emoção em todo mundo. Cada leitor leva para uma história a sua própria bagagem, suas memórias, seus afetos e suas perguntas.

No fim, talvez seja isso que torne a literatura tão bonita. O livro é escrito por alguém, mas a experiência da leitura pertence a quem o lê.

E talvez existam livros que chegam exatamente quando estamos preparados para ouvi-los.

Nem antes… Nem depois… No momento certo.

Por isso, se você gosta de histórias que mexem com sentimentos, relações humanas e aquelas regiões da alma que nem sempre conseguimos explicar, talvez Tudo é Rio mereça um lugar na sua lista de leituras.

Leia sem pressa. Deixe a história acontecer. E, quando fechar o livro, não tenha pressa de procurar outro. Fique alguns minutos com aquilo que ele deixou.

Talvez você descubra que não estava apenas lendo sobre outras pessoas.

Talvez estivesse, silenciosamente, encontrando alguma coisa em você.

Por Giorgia Barreto
Educadora, comunicadora, artista visual e terapeuta

Porque há histórias que terminam na última página, mas há outras que continuam dentro da gente. E talvez seja justamente aí que a literatura comece a cumprir sua parte mais bonita: quando uma história deixa de ser apenas uma história e passa a fazer parte de nós.

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Feliz Hoje...

Quando acolher o que é abre caminho para o que pode ser

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Quando acolher o que é abre caminho para o que pode ser

Você já desejou profundamente que sua vida fosse diferente? Talvez exista um projeto que ainda não saiu do papel, um relacionamento que você gostaria que tivesse tomado outro rumo, um trabalho que já não faça sentido ou um sonho que continua guardado em algum lugar dentro de você. Talvez exista apenas aquela sensação incômoda de que a vida que você está vivendo hoje não corresponde àquilo que imaginou para si.

Quando percebemos essa distância entre o que somos e o que gostaríamos de ser, é comum surgir a frustração. Começamos a olhar para o presente como se ele fosse um erro e passamos a pensar no que deveria ter acontecido, no que não aconteceu, no que perdemos e no tempo que passou. Sem perceber, podemos transformar a própria vida em uma batalha permanente contra a realidade.

Mas talvez exista outro caminho: acolher o ponto em que estamos.

E, antes que você pense que estou falando em se conformar, deixe-me explicar.

Aceitar não é desistir

Existe uma diferença enorme entre aceitação e acomodação. Acomodar-se é abandonar a possibilidade de mudança porque acreditamos que não vale mais a pena tentar. Aceitar é reconhecer honestamente onde estamos, sem precisar fingir que tudo está bem, mas também sem transformar aquilo que não está bem em uma sentença definitiva.

É conseguir dizer: “É aqui que estou.”

Não para permanecer aqui para sempre, mas para descobrir, com mais clareza, para onde queremos ir.

É muito difícil transformar aquilo que não conseguimos enxergar. Às vezes, passamos tanto tempo negando o que sentimos que gastamos toda a nossa energia tentando sustentar uma realidade que já não existe.

A aceitação interrompe essa luta. Ela nos permite deixar de perguntar apenas por que a vida não está acontecendo como imaginamos e começar a perguntar:

“O que posso fazer a partir daqui?”

O presente não precisa ser perfeito para ser vivido

Talvez você esteja atravessando uma fase que não escolheu. Uma perda, uma mudança, uma dificuldade financeira, uma frustração profissional, o fim de um relacionamento ou uma espera que parece não ter fim.

Aceitar essa realidade não significa gostar dela. Também não significa considerar justo aquilo que aconteceu. Significa reconhecer que aconteceu.

E existe uma força enorme nesse reconhecimento.

Enquanto lutamos internamente contra aquilo que já está posto, ficamos presos ao passado. Quando aceitamos a realidade, começamos a recuperar energia para construir o próximo passo.

É como tentar nadar contra uma correnteza. Podemos passar horas usando toda a nossa força apenas para permanecer praticamente no mesmo lugar. Quando percebemos a direção da água, talvez possamos escolher outro movimento.

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A aceitação não muda necessariamente a correnteza.

Mas pode mudar a maneira como navegamos.

E os nossos sonhos?

Aceitar o presente não significa abandonar nossos sonhos. Muito pelo contrário. Às vezes, é justamente quando deixamos de lutar desesperadamente contra o presente que conseguimos olhar para o futuro com mais clareza.

Podemos continuar desejando, planejando, criando, estudando, tentando e recomeçando, mas sem transformar o sonho em uma exigência de que tudo aconteça exatamente como imaginamos.

A vida raramente segue nossos roteiros. E talvez isso não seja necessariamente ruim.

Existem caminhos que ainda não conhecemos, pessoas que ainda não encontramos e possibilidades que ainda não conseguimos imaginar. Nem tudo aquilo que desejamos acontecerá da maneira que esperamos, e aprender a lidar com isso também faz parte do amadurecimento.

Às vezes, a vida não entrega exatamente aquilo que pedimos, mas nos coloca diante de possibilidades que jamais teríamos considerado.

Quando a frustração toma conta

Frustração faz parte da vida. Todos nós já desejamos alguma coisa que não aconteceu. O problema começa quando uma frustração deixa de ser uma experiência e passa a definir nossa identidade.

“Eu fracassei.”

“Minha vida não deu certo.”

“É tarde demais.”

“Eu nunca vou conseguir.”

São pensamentos que podem aparecer quando estamos machucados, mas pensamentos não são necessariamente fatos.

Uma situação difícil não resume uma existência inteira. Um projeto que não deu certo não significa que você seja incapaz. Um relacionamento que terminou não significa que você não seja digno de amor. Uma oportunidade perdida não significa que todas as portas tenham se fechado.

Às vezes, precisamos apenas parar de transformar um capítulo difícil em uma história completa.

Aceitar também é acolher quem somos hoje

Existe uma cobrança silenciosa para que sejamos sempre melhores: mais produtivos, mais bonitos, mais bem-sucedidos, mais organizados, mais felizes. Como se a pessoa que somos hoje fosse apenas uma versão provisória que precisa ser rapidamente substituída por uma versão melhor.

Mas e se, por alguns instantes, pudéssemos olhar para nós mesmos com mais gentileza?

Você fez o melhor que conseguiu com os recursos que tinha naquele momento. Talvez hoje saiba coisas que não sabia antes. Talvez tenha amadurecido. Talvez tenha errado. Talvez ainda esteja tentando descobrir quem é.

Tudo isso faz parte.

Aceitar quem somos hoje não significa deixar de desejar crescimento. Significa não precisar odiar a pessoa que somos agora para nos tornarmos quem desejamos ser.

A mudança começa quando paramos de fugir de nós mesmos

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Talvez essa seja uma das grandes contradições da vida. Queremos mudar, mas muitas vezes não conseguimos aceitar o ponto de partida.

Queremos uma vida diferente, mas não queremos olhar para aquilo que precisa ser transformado. Queremos novos relacionamentos, mas não queremos reconhecer nossos padrões. Queremos novas oportunidades, mas não queremos admitir nossos medos. Queremos paz, mas continuamos alimentando conflitos internos.

A aceitação cria espaço.

Espaço para perceber, compreender, escolher e mudar.

E talvez seja por isso que ela seja tão poderosa. Não porque tenha o poder mágico de transformar imediatamente aquilo que desejamos, mas porque nos devolve algo fundamental: a possibilidade de agir conscientemente sobre a própria vida.

O que está sob seu controle?

Talvez você não possa mudar o passado. Não possa controlar o comportamento de outra pessoa, decidir quando uma oportunidade surgirá ou impedir todas as perdas. Também não pode garantir que seus planos acontecerão exatamente como imaginou.

Mas pode escolher algumas coisas.

Pode escolher como responder. Onde colocar sua energia. Quais relações deseja cultivar. Pode buscar ajuda, aprender, mudar de direção, começar novamente, cuidar de si e dar um pequeno passo.

Talvez seja disso que a transformação realmente precise.

Não de uma grande revolução de um dia para o outro, mas de pequenas escolhas conscientes repetidas ao longo do tempo.

Acolher o presente não significa dizer: “Minha vida será sempre assim.”

Significa dizer:

“Esta é a realidade que tenho diante de mim hoje. E, a partir dela, posso escolher o próximo passo.”

Talvez você ainda não esteja onde gostaria de estar. Tudo bem. Talvez o sonho ainda esteja distante. Tudo bem, também.

Você não precisa transformar a sua vida inteira hoje.

Comece olhando para ela com honestidade. Sem negar, sem romantizar e sem se punir. Reconheça o ponto em que está. Respire. Observe. E então pergunte a si mesmo:

“O que posso fazer, a partir daqui, para me aproximar da vida que desejo viver?”

Talvez a resposta não venha imediatamente. Talvez precise de tempo. Mas quando deixamos de gastar toda a nossa energia desejando estar em outro lugar, começamos finalmente a ter energia para caminhar.

E talvez esse seja o verdadeiro sentido da aceitação:

não desistir do que pode ser, mas fazer as pazes com aquilo que é.

Por Giorgia Barreto
Educadora, comunicadora, artista visual e terapeuta

Porque talvez acolher o presente não seja renunciar aos nossos sonhos, mas encontrar, dentro da realidade de hoje, o primeiro caminho possível para chegar até eles.

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