TECNOLOGIA
Como funcionam os laboratórios de segurança no Brasil
Publicado em
30 de junho de 2026por
infocoweb
Por trás de cada vacina, diagnóstico ou descoberta científica, existe um cuidado essencial: a biossegurança. No Brasil, esse sistema organiza os laboratórios conforme o risco dos agentes manipulados e garante que a pesquisa avance com responsabilidade, protegendo pesquisadores, população e meio ambiente.
É nesse contexto que entram os níveis de biossegurança, uma classificação que orienta desde pesquisas mais simples até estudos com agentes altamente perigosos, sempre com o grau adequado de proteção.
Os agentes biológicos são classificados por autoridades em saúde em diferentes classes de risco. No Brasil, o órgão responsável é o Ministério da Saúde, que considera diversos critérios, como infectividade, patogenicidade e virulência dos agentes biológicos, disponibilidade de medidas terapêuticas e profiláticas eficazes, modo de transmissão e dose infectante.
A partir dessa avaliação, estabelece-se uma escala progressiva de controle. Quanto maior o risco do agente manipulado, maior a complexidade das exigências de infraestrutura, equipamentos e práticas laboratoriais. É essa lógica que organiza os níveis de biossegurança como NB1, NB2, NB3 e NB4, todos baseados em normas internacionais.
A classificação funciona como uma escada: começa no nível básico e avança até estruturas altamente complexas, de acordo com o risco dos agentes.
NB1 – nível básico
É o nível mais simples da biossegurança. Nele, são manipulados plantas, animais e microrganismos que não causam doenças em pessoas saudáveis. As atividades ocorrem em bancadas abertas, seguindo boas práticas laboratoriais, sem necessidade de estruturas especiais. É o ponto de partida para a pesquisa científica em ambientes controlados.
NB2 – risco moderado
Nos laboratórios NB2, são estudados agentes biológicos que podem causar doenças em humanos, mas com risco considerado moderado. O acesso ao ambiente é controlado durante as atividades, os pesquisadores utilizam equipamentos de proteção individual (EPIs), conforme o tipo de experimento. Procedimentos que podem gerar aerossóis infecciosos ou respingos são feitos em Cabines de Segurança Biológica (CBS), que ajudam evitar exposição aos agentes. As equipes recebem treinamento específico e atuam sob supervisão de especialistas, garantindo o cumprimento de protocolos de segurança.
NB3 – alta contenção
Os laboratórios NB3 lidam com agentes biológicos que podem causar doenças graves e que têm potencial de transmissão pelo ar. Por isso, contam com medidas mais rigorosas: uso obrigatório de equipamentos de proteção individual, manipulação em cabines de segurança, acesso restrito e sistemas de ventilação que controlam o fluxo do ar. A estrutura inclui filtragem e descontaminação de resíduos, além de equipamentos altamente capacitados.
NB4 – máxima contenção
Os laboratórios NB4 representam o mais alto grau de biossegurança, destinados ao estudo de agentes extremamente perigosos, capazes de causar doenças graves e, muitas vezes, ainda sem vacina ou tratamento disponível. Nesses laboratórios, os pesquisadores utilizam trajes especiais pressurizados e seguem protocolos rigorosos de entrada e saída, com múltiplas etapas de descontaminação. As instalações são isoladas, com paredes seladas e sistemas de ventilação que mantêm pressão negativa e filtram todo o ar, sem recirculação. Líquidos e resíduos também passam por processos de descontaminação antes de serem descartados, e todos os sistemas são monitorados diariamente. O sistema impede qualquer liberação de agentes de ambiente.
Esse conjunto de medidas cria múltiplas camadas de proteção. Na prática, significa que, quanto maior o risco do agente estudado, mais robusta é a estrutura de segurança, garantindo proteção dos profissionais, da população e do meio ambiente.
Laboratórios NB4, como os previstos no Orion, reúnem diferentes e redundantes medidas de segurança, que visam proteger o trabalhador, a sociedade e o meio ambiente. O projeto em desenvolvimento pelo Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), organização social vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), surge como infraestrutura estratégica para avançar nas pesquisas com patógenos de alto risco, ampliando a capacidade científica e a preparação em emergências sanitárias.
Em construção em Campinas (SP), no campus do CNPEM, o projeto reunirá técnicas analíticas e competências avançadas de bioimagens. O Orion subsidiará ações de vigilância e política em saúde, assim como o desenvolvimento de métodos de diagnóstico, vacinas, tratamentos e estratégias epidemiológicas. Instrumento de apoio à soberania nacional no enfrentamento de crises sanitárias, o projeto tem o potencial de beneficiar diversas áreas, como saúde, ciência e tecnologia, defesa e meio ambiente.
Segundo a gerente de biossegurança do CNPEM, Tatiana Ometto, o projeto deve ampliar o conhecimento sobre patógenos e doenças associadas, contribuindo para ações de vigilância e políticas de saúde, além de apoiar o desenvolvimento de diagnósticos, vacinas e tratamentos de doenças de importância epidemiológica. “Laboratórios de máxima contenção biológica são fundamentais para que os países da América Latina possam conduzir pesquisas com agentes biológicos de classe de risco 4,” aponta.
Como funciona o CTNBio na prática
A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), vinculada ao MCTI, é o órgão responsável por apoiar o Governo do Brasil nas decisões relacionadas à biossegurança no Brasil. Formado por especialistas de diferentes áreas, a comissão avalia riscos, estabelece normas técnicas e emite pareceres sobre atividades que envolvem organismos geneticamente modificados (OGMs) e seus derivados.
O trabalho é feito por meio de um processo técnico e contínuo de análise. As reuniões são organizadas por temas, como saúde humana, animal e meio ambiente. Cada proposta passa por análise detalhada de relatores, que analisam os projetos e apresentam pareceres para discussão coletiva.
“A CTNBio participa da avaliação dos riscos, da definição das normas e acompanha as pesquisas para garantir que as atividades ocorram com segurança e responsabilidade, ao mesmo tempo em que viabiliza o avanço científico no País”, explica o coordenador da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, Rubens do Nascimento.
As decisões são tomadas de forma colegiada, caso a caso, considerando os riscos à saúde humana e animal e ao meio ambiente. Esse processo orienta tanto a realização de pesquisa quanto o uso comercial dessas tecnologias, sempre com base no princípio da precaução e no compromisso com a segurança.
Outro ponto central é a transparência. Todos os pedidos e decisões são publicados no Diário Oficial da União, permitindo o acompanhamento pela sociedade. Atualmente, cerca de 600 instituições fazem parte desse sistema e devem apresentar relatórios periódicos sobre as atividades.
TECNOLOGIA
MCTI anuncia cerca de R$ 65 milhões para estimular a diversidade na ciência
Published
9 horas atráson
30 de junho de 2026By
infocoweb
O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), em articulação com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e outros órgãos do Governo do Brasil, lançou nesta terça-feira (30) um pacote de investimentos de cerca de R$ 65 milhões. Serão cinco novas chamadas públicas, além de programas de inclusão de mulheres, população negra, indígenas e comunidades tradicionais na produção científica nacional.
Sob a premissa de que a ciência se constrói com igualdade étnico-racial e de gênero, os novos editais unem esforços com o Ministério da Igualdade Racial (MIR), Ministério das Mulheres, Ministério da Educação (MEC), Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Petrobras e Instituto Rio Branco.
Para a ministra Luciana Santos, a iniciativa marca uma inflexão na forma de financiar o conhecimento no País. “Esse é um daqueles momentos em que a política pública encontra seu propósito mais profundo, que é transformar realidades e ampliar horizontes”, declarou, durante a cerimônia. A formulação de políticas públicas precisas exige uma base diversificada de pesquisadores e evidências sólidas.
Conheça as iniciativas
O maior aporte individual assegura o Projeto InspirAÇÃO. O Centro de Pesquisas, Desenvolvimento e Inovação da Petrobras (Cenpes) financia a ação com R$ 30,24 milhões para inserir alunas negras do ensino médio na cultura científica, focando em áreas estratégicas como energia e sustentabilidade. As estudantes receberão bolsas de iniciação científica (modalidade ATP-B) no valor de R$ 560 mensais. Já o Programa Asas para o Futuro destina R$ 7,55 milhões para qualificar 3.520 jovens mulheres nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (Stem, na sigla em inglês). A ação prioriza adolescentes em situação de vulnerabilidade e distribui os recursos entre custeio, capital e bolsas mensais de R$ 300 durante os cursos de formação sociopolítica e profissional.
A internacionalização acadêmica ganha força com a segunda edição da Chamada Atlânticas (Beatriz Nascimento). Com R$ 4,92 milhões previstos, o edital apoia pesquisadoras negras, quilombolas, indígenas e ciganas em doutorados e pós-doutorados no exterior. Já o Programa Lélia Gonzalez direciona R$ 5 milhões para estudos que investiguem o racismo estrutural e as disparidades na sociedade brasileira. As propostas recebem até R$ 250 mil cada, incluindo repasses para bolsas de Iniciação Científica (IC) e Apoio Técnico (AT).
O Governo do Brasil também instituiu a Rede Nacional de Pesquisa em Igualdade Racial. O projeto recebe R$ 15 milhões para conectar universidades e instituições de ciência e tecnologia (ICTs), sob a coordenação-geral da professora e ex-ministra Nilma Lino Gomes (Universidade Federal de Minas Gerais). A rede mapeia, diagnostica e avalia políticas públicas em todo o território nacional. Outro R$ 1 milhão sustenta pesquisas focadas em aprimorar o Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Sinapir), priorizando a participação de povos de terreiro, ciganos, pessoas com deficiência e a população LGBTQIA+.
Para ampliar a presença de grupos sub-representados em espaços de poder globais, o Programa de Ação Afirmativa (PAA) aplica R$ 210 mil em uma nova frente. A iniciativa concede sete Bolsas Vocação Diplomacia (R$ 30 mil cada uma) voltadas exclusivamente para mulheres negras de baixa renda, fortalecendo a parceria de duas décadas com o Instituto Rio Branco. “Ciência não se faz apenas com excelência, ciência também se faz com equidade. E não há verdadeira excelência onde há exclusão”, afirmou a ministra. Ela explicou que o ecossistema tecnológico demanda diversidade para gerar resultados que dialoguem com os problemas reais da população. “Para ser mais forte, a ciência precisa ser feita por muitas mãos, muitas vozes, cores, olhares e pensamentos”, afirmou a ministra.

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