BRASÍLIA

Feliz Hoje...

Cidadela: uma cidade feita para lembrar como é olhar o mundo com encantamento

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Cidadela

As portas se abriram. E a Cidadela começou a ser habitada.

Quem entra na instalação de Maria Ezou, em cartaz na CAIXA Cultural Brasília, encontra uma cidade que não existe nos mapas. Ela é feita de pequenas casas, sons, luzes, autômatos, memórias e universos em miniatura. Uma cidade inventada para as infâncias, mas que também tem muito a dizer aos adultos.

A primeira coisa que chama atenção é a escala. As casas estão posicionadas na altura do olhar das crianças, convidando os pequenos a espiar por frestas, janelas e pequenas aberturas. É preciso se aproximar, abaixar, observar com cuidado. A exposição pede uma outra relação com o espaço. Não basta passar diante das obras. É preciso entrar na experiência.

E talvez seja justamente aí que Cidadela consiga nos tocar.

Maria Ezou conta que a origem da instalação está em uma história muito íntima. Quando sua filha Lina era pequena e demorava a dormir, ela inventava para a menina a história da Casa das Mil Janelas, em que cada janela guardava a memória de um dia. Quando engravidou de seu filho Martin, a artista começou a imaginar o próprio corpo como uma casa, com muitas janelas e um habitante dentro dela. Foi desse encontro entre maternidade, corpo, memória e imaginação que nasceu a Cidadela.

A ideia se amplia ao longo da exposição. O corpo humano passa a ser compreendido como uma cidade formada por muitas casas. Existe uma casa para cada emoção, cada órgão, cada célula, cada experiência. Somos, de certa maneira, pequenas cidades habitadas por muitas coisas ao mesmo tempo.

Essa imagem me parece especialmente bonita porque nos lembra de algo que a vida adulta costuma fazer com dificuldade: acolher a nossa própria complexidade.

A Cidadela é formada por 15 “casas-corpos”, cada uma delas abrigando pequenos cenários animados por mecanismos, luzes e sons. Memória, afeto, medo, alegria, liberdade, proteção, espera e empatia aparecem como habitantes desse território imaginário. A instalação reúne elementos das artes visuais, do teatro de animação, da arte eletrônica, da música, da literatura, do audiovisual e das artes têxteis.

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Na entrada, há ainda uma estufa, inspirada nas raízes aéreas dos manguezais e na forma de uma montanha. Ali estão sementes e mudas de espécies nativas do Cerrado, e o público pode participar de ações de plantio. Os autorretratos produzidos pelos visitantes também podem passar a integrar a galeria de novos habitantes da Cidadela.

É uma exposição que fala de infância, mas não trata a infância como algo distante ou apenas pertencente às crianças. Ela nos convida a lembrar de uma época em que tínhamos mais tempo para inventar mundos.

Talvez você se lembre de alguma coisa assim.

Uma caixa que virou casa. Um lençol que virou esconderijo. Uma cadeira que se transformou em carro. Um quintal que parecia enorme. Uma história inventada antes de dormir. Uma pequena coleção de objetos que, para qualquer outra pessoa, não significava nada, mas que para nós era um tesouro.

A infância tinha essa capacidade de transformar o pouco em muito.

Cidadela recupera esse gesto de imaginar. E faz isso sem pressa. A própria artista fala em um universo de “delicadeza, encantamento e tempo expandido”. É uma expressão que combina muito com a experiência.

Vivemos em uma época em que quase tudo precisa ser rápido, funcional e imediatamente compreensível. Cidadela propõe o contrário. Ela pede tempo para olhar, ouvir, descobrir e sentir. Não entrega tudo pronto. Deixa espaço para que cada visitante construa sua própria experiência.

E isso vale para adultos também.

Talvez entrar em uma exposição como essa seja uma pequena oportunidade de lembrar que ainda podemos olhar para o mundo sem precisar saber imediatamente o que ele significa.

A Cidadela já circula pelo Brasil desde 2022 e passou por importantes espaços culturais, alcançando mais de 69 mil pessoas. Em Brasília, chega em formato ampliado e mantém sua proposta de aproximar arte contemporânea, infância, natureza e participação.

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A programação também inclui oficinas, visitas mediadas e encontros sobre arte e infância. No dia 22 de agosto, haverá uma mesa de debate com Maria Ezou e Amara Hurtado, da As Caixeiras Cia. de Bonecas. No encerramento da temporada, em 23 de agosto, a artista fará uma visita mediada e será realizada a oficina Expandir Territórios Livres.

Acho que Cidadela é dessas exposições que funcionam melhor quando não tentamos explicá-las demais. É preciso ir.

Entrar… Olhar… Escutar!

Deixar que alguma coisa nos encontre.

E, quem sabe, sair de lá levando uma lembrança que não estava esperando encontrar.

Porque a cidade que Maria Ezou construiu pode estar em outro lugar, mas aquilo que ela desperta está dentro de cada um de nós. Somos feitos de casas, memórias, afetos, medos, encontros e histórias. Somos territórios em permanente construção.

E, de vez em quando, faz bem visitar algumas dessas casas que ainda existem dentro da gente.

CIDADELA

Exposição de Maria Ezou
Local: CAIXA Cultural Brasília
Endereço: SBS, Quadra 4, Lotes 3/4, Asa Sul, Brasília-DF
Visitação: até 23 de agosto de 2026
Horário: terça a domingo, das 9h às 21h
Entrada: gratuita
Classificação: livre
Acessibilidade: audiodescrição e acesso para pessoas com deficiência
Agendamento de grupos e escolas: (61) 99922-0765

Programação especial:
22 de agosto, às 14h: mesa de debate sobre arte e infância, com Maria Ezou e Amara Hurtado.
23 de agosto, às 10h: visita mediada pela artista e oficina Expandir Territórios Livres.

Por Giorgia Barreto
Educadora, comunicadora, artista visual e terapeuta

Porque algumas cidades não existem para serem encontradas no mapa. Existem para nos lembrar de lugares que ainda habitam dentro de nós.

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Feliz Hoje...

Quando acolher o que é abre caminho para o que pode ser

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Quando acolher o que é abre caminho para o que pode ser

Você já desejou profundamente que sua vida fosse diferente? Talvez exista um projeto que ainda não saiu do papel, um relacionamento que você gostaria que tivesse tomado outro rumo, um trabalho que já não faça sentido ou um sonho que continua guardado em algum lugar dentro de você. Talvez exista apenas aquela sensação incômoda de que a vida que você está vivendo hoje não corresponde àquilo que imaginou para si.

Quando percebemos essa distância entre o que somos e o que gostaríamos de ser, é comum surgir a frustração. Começamos a olhar para o presente como se ele fosse um erro e passamos a pensar no que deveria ter acontecido, no que não aconteceu, no que perdemos e no tempo que passou. Sem perceber, podemos transformar a própria vida em uma batalha permanente contra a realidade.

Mas talvez exista outro caminho: acolher o ponto em que estamos.

E, antes que você pense que estou falando em se conformar, deixe-me explicar.

Aceitar não é desistir

Existe uma diferença enorme entre aceitação e acomodação. Acomodar-se é abandonar a possibilidade de mudança porque acreditamos que não vale mais a pena tentar. Aceitar é reconhecer honestamente onde estamos, sem precisar fingir que tudo está bem, mas também sem transformar aquilo que não está bem em uma sentença definitiva.

É conseguir dizer: “É aqui que estou.”

Não para permanecer aqui para sempre, mas para descobrir, com mais clareza, para onde queremos ir.

É muito difícil transformar aquilo que não conseguimos enxergar. Às vezes, passamos tanto tempo negando o que sentimos que gastamos toda a nossa energia tentando sustentar uma realidade que já não existe.

A aceitação interrompe essa luta. Ela nos permite deixar de perguntar apenas por que a vida não está acontecendo como imaginamos e começar a perguntar:

“O que posso fazer a partir daqui?”

O presente não precisa ser perfeito para ser vivido

Talvez você esteja atravessando uma fase que não escolheu. Uma perda, uma mudança, uma dificuldade financeira, uma frustração profissional, o fim de um relacionamento ou uma espera que parece não ter fim.

Aceitar essa realidade não significa gostar dela. Também não significa considerar justo aquilo que aconteceu. Significa reconhecer que aconteceu.

E existe uma força enorme nesse reconhecimento.

Enquanto lutamos internamente contra aquilo que já está posto, ficamos presos ao passado. Quando aceitamos a realidade, começamos a recuperar energia para construir o próximo passo.

É como tentar nadar contra uma correnteza. Podemos passar horas usando toda a nossa força apenas para permanecer praticamente no mesmo lugar. Quando percebemos a direção da água, talvez possamos escolher outro movimento.

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A aceitação não muda necessariamente a correnteza.

Mas pode mudar a maneira como navegamos.

E os nossos sonhos?

Aceitar o presente não significa abandonar nossos sonhos. Muito pelo contrário. Às vezes, é justamente quando deixamos de lutar desesperadamente contra o presente que conseguimos olhar para o futuro com mais clareza.

Podemos continuar desejando, planejando, criando, estudando, tentando e recomeçando, mas sem transformar o sonho em uma exigência de que tudo aconteça exatamente como imaginamos.

A vida raramente segue nossos roteiros. E talvez isso não seja necessariamente ruim.

Existem caminhos que ainda não conhecemos, pessoas que ainda não encontramos e possibilidades que ainda não conseguimos imaginar. Nem tudo aquilo que desejamos acontecerá da maneira que esperamos, e aprender a lidar com isso também faz parte do amadurecimento.

Às vezes, a vida não entrega exatamente aquilo que pedimos, mas nos coloca diante de possibilidades que jamais teríamos considerado.

Quando a frustração toma conta

Frustração faz parte da vida. Todos nós já desejamos alguma coisa que não aconteceu. O problema começa quando uma frustração deixa de ser uma experiência e passa a definir nossa identidade.

“Eu fracassei.”

“Minha vida não deu certo.”

“É tarde demais.”

“Eu nunca vou conseguir.”

São pensamentos que podem aparecer quando estamos machucados, mas pensamentos não são necessariamente fatos.

Uma situação difícil não resume uma existência inteira. Um projeto que não deu certo não significa que você seja incapaz. Um relacionamento que terminou não significa que você não seja digno de amor. Uma oportunidade perdida não significa que todas as portas tenham se fechado.

Às vezes, precisamos apenas parar de transformar um capítulo difícil em uma história completa.

Aceitar também é acolher quem somos hoje

Existe uma cobrança silenciosa para que sejamos sempre melhores: mais produtivos, mais bonitos, mais bem-sucedidos, mais organizados, mais felizes. Como se a pessoa que somos hoje fosse apenas uma versão provisória que precisa ser rapidamente substituída por uma versão melhor.

Mas e se, por alguns instantes, pudéssemos olhar para nós mesmos com mais gentileza?

Você fez o melhor que conseguiu com os recursos que tinha naquele momento. Talvez hoje saiba coisas que não sabia antes. Talvez tenha amadurecido. Talvez tenha errado. Talvez ainda esteja tentando descobrir quem é.

Tudo isso faz parte.

Aceitar quem somos hoje não significa deixar de desejar crescimento. Significa não precisar odiar a pessoa que somos agora para nos tornarmos quem desejamos ser.

A mudança começa quando paramos de fugir de nós mesmos

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Talvez essa seja uma das grandes contradições da vida. Queremos mudar, mas muitas vezes não conseguimos aceitar o ponto de partida.

Queremos uma vida diferente, mas não queremos olhar para aquilo que precisa ser transformado. Queremos novos relacionamentos, mas não queremos reconhecer nossos padrões. Queremos novas oportunidades, mas não queremos admitir nossos medos. Queremos paz, mas continuamos alimentando conflitos internos.

A aceitação cria espaço.

Espaço para perceber, compreender, escolher e mudar.

E talvez seja por isso que ela seja tão poderosa. Não porque tenha o poder mágico de transformar imediatamente aquilo que desejamos, mas porque nos devolve algo fundamental: a possibilidade de agir conscientemente sobre a própria vida.

O que está sob seu controle?

Talvez você não possa mudar o passado. Não possa controlar o comportamento de outra pessoa, decidir quando uma oportunidade surgirá ou impedir todas as perdas. Também não pode garantir que seus planos acontecerão exatamente como imaginou.

Mas pode escolher algumas coisas.

Pode escolher como responder. Onde colocar sua energia. Quais relações deseja cultivar. Pode buscar ajuda, aprender, mudar de direção, começar novamente, cuidar de si e dar um pequeno passo.

Talvez seja disso que a transformação realmente precise.

Não de uma grande revolução de um dia para o outro, mas de pequenas escolhas conscientes repetidas ao longo do tempo.

Acolher o presente não significa dizer: “Minha vida será sempre assim.”

Significa dizer:

“Esta é a realidade que tenho diante de mim hoje. E, a partir dela, posso escolher o próximo passo.”

Talvez você ainda não esteja onde gostaria de estar. Tudo bem. Talvez o sonho ainda esteja distante. Tudo bem, também.

Você não precisa transformar a sua vida inteira hoje.

Comece olhando para ela com honestidade. Sem negar, sem romantizar e sem se punir. Reconheça o ponto em que está. Respire. Observe. E então pergunte a si mesmo:

“O que posso fazer, a partir daqui, para me aproximar da vida que desejo viver?”

Talvez a resposta não venha imediatamente. Talvez precise de tempo. Mas quando deixamos de gastar toda a nossa energia desejando estar em outro lugar, começamos finalmente a ter energia para caminhar.

E talvez esse seja o verdadeiro sentido da aceitação:

não desistir do que pode ser, mas fazer as pazes com aquilo que é.

Por Giorgia Barreto
Educadora, comunicadora, artista visual e terapeuta

Porque talvez acolher o presente não seja renunciar aos nossos sonhos, mas encontrar, dentro da realidade de hoje, o primeiro caminho possível para chegar até eles.

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