Opinião
“O POVO COME PÃO, NÃO IDEOLOGIA”: A Lição de Mário Soares, ex-presidente de Portugal
Foto: Andreia Tarelow
Durante anos, todo mês de julho, a Universidade de Coimbra, em parceria com o Parlamento Europeu, promove um curso de férias. Eu fui durante muitos anos convidado para dar uma palestra neste evento, que contava com a presença de autoridades e professores de diversos países.
Em um desses anos, minha palestra foi ao lado do ex-presidente de Portugal, Mário Soares. Após nossas apresentações, fomos almoçar. Minha falecida esposa, a advogada Ruth Vidal da Silva Martins, que sempre me acompanhava e também era cidadã portuguesa por conta de nossos ancestrais – gostávamos de estar em Portugal, sendo que sou catedrático da Universidade do Minho, em Braga, desde 2009 e acadêmico da Academia Internacional de Cultura Portuguesa, em Lisboa, desde 2004 –, aproveitou o almoço para questionar o ex-presidente.
Ela perguntou: “Senhor presidente, como o senhor, que sempre defendeu teorias socialistas e marxistas conseguiu, ao assumir a presidência de Portugal, dialogar com todas as correntes políticas e ser considerado um presidente extremamente conciliador? Como o senhor conciliou sua ideologia com o exercício da presidência?”
A resposta do ex-presidente foi: “Minha senhora, o povo come pão, não come ideologia. Eu tive que ser presidente de Portugal, independente das minhas convicções, e tenho a sensação de que ocorre o mesmo no relacionamento com seu marido. Nós nos damos muito bem, apesar de termos correntes de pensamento diferentes. Eu sempre procurei dialogar, porque a política é feita de diálogo”.
Mário Soares foi um presidente que, após a Revolução dos Cravos e já na fase mais aguda da Revolução de 25 de abril, quando foi eleito, deixou a presidência com admiração total do povo português. Mesmo em suas visitas ao Brasil, quando esteve na Ordem dos Advogados, e em nossas idas a Portugal, sempre dialogava, apesar de suas convicções ideológicas.
A fala do ex-presidente de Portugal, Mário Soares, de que “o povo come pão, não come ideologia”, é uma profunda reflexão e exatamente o que precisamos aplicar no Brasil.
Atualmente, enfrentamos uma grave crise com o governo dos Estados Unidos. Estou convencido de que o principal fator para isso foram os discursos agressivos e gratuitos do presidente Lula contra o presidente Trump. Ao contrário, o presidente Milei, da Argentina, por exemplo, não sofreu nenhuma represália; e tem tido benefícios do governo estadunidense, inclusive em nível de tarifas. Nós poderíamos ter vantagens semelhantes por estarmos no mesmo continente, se nosso discurso fosse mais coerente com o de um país ocidental e de livre iniciativa, tal qual prevê a Constituição brasileira em seu artigo 170. Desse modo, não estaríamos vivenciando essa terrí vel crise.
Sinto, ao conversar com cada empresário, as grandes dificuldades que eles enfrentam ao buscar canais próprios para solucionar a questão do tarifaço de 50% aos produtos brasileiros e convencer o presidente Trump a ouvir o Brasil, apesar dos ataques do presidente Lula.
Não é verdade que estamos discutindo questões relativas à soberania nacional, pois ninguém está invadindo o Brasil. O que está em pauta é o comércio internacional: tarifa é matéria econômica, mas pode trazer consequências gigantescas para um país com um Produto Interno Bruto (PIB) de apenas 2 trilhões e 100 bilhões de dólares, se entrar nessa guerra inútil com uma nação cujo PIB está em torno de 30 trilhões de dólares.
É fundamental que tentemos levar o governo a conversar e dialogar, procurando não agir como o presidente Lula, que fica gritando, atacando e chamando o governo Trump de imperador do mundo, etc.
Precisamos de diálogo. Como disse acima, a questão é econômica, não estando em discussão a soberania nacional. Vale, pois, refletirmos sobre isso.

Foto: Andreia Tarelow
Ives Gandra da Silva Martins é professor emérito das universidades Mackenzie, Unip, Unifieo, UniFMU, do Ciee/O Estado de São Paulo, das Escolas de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), Superior de Guerra (ESG) e da Magistratura do Tribunal Regional Federal – 1ª Região, professor honorário das Universidades Austral (Argentina), San Martin de Porres (Peru) e Vasili Goldis (Romênia), doutor honoris causa das Universidades de Craiova (Romênia) e das PUCs PR e RS, catedrático da Universidade do Minho (Portugal), presidente do Conselho Superior de Direito da Fecomercio -SP, ex-presidente da Acade mia Paulista de Letras (APL) e do Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp).
* As ideias e opiniões expressas nos artigos são de exclusiva responsabilidade de seus autores, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Portal Radar Digital Brasília.
Opinião
“O que ninguém fala sobre as feiras do agro”
Published
4 semanas atráson
21 de abril de 2026
Minha sincera opinião sobre as feiras do agro
Há exatamente 20 anos, visitei pela primeira vez a maior feira do agro da América Latina. Eu tinha 22 anos e fiquei impressionado com tudo aquilo. A estrutura, a quantidade de empresas, o movimento de pessoas.
Em meio às ruas de chão batido, havia stands enormes, bem montados, com equipes completas — da recepção ao atendimento técnico. Para quem estava começando, era algo mágico. Um único dia não era suficiente para ver nem metade do que estava exposto.
No ano seguinte, voltei. Mas dessa vez, do outro lado — como expositor.
E o que mudou?
Tudo.
De lá pra cá, foram mais de 20 anos participando desse tipo de evento, praticamente todos os anos. E, sendo bem sincero, até hoje eu me faço a mesma pergunta:
Por que essas feiras não evoluíram?
E mais:
por que continuam replicando esse mesmo modelo pelo Brasil inteiro, em feiras regionais e até microrregionais?
Na teoria, o produtor rural — que é a peça mais importante do evento — deveria usar esse tempo para aprender, conhecer novas tecnologias, entender melhor máquinas, insumos, sementes e tudo que pode ajudar no seu crescimento.
Mas, na prática, não é isso que acontece.
As feiras viraram um grande balcão de negócios.
Existe uma pressão enorme por venda.
Pressão das fábricas, das revendas, dos bancos… e até da própria feira.
Tudo precisa justificar o investimento feito.
Os stands estão cada vez mais caros, mais sofisticados, cheios de detalhes que muitas vezes não refletem a realidade das empresas no dia a dia.
Enquanto isso, as máquinas ficam fechadas.
E não é por acaso. Existe um problema real: muita gente que nem é do setor entra nos equipamentos como se fossem brinquedos, aperta tudo, mexe em tudo — e isso acaba gerando prejuízo.
Do lado de quem está vendendo, a situação também é complicada.
O vendedor fica dividido:
Atende com calma um possível cliente, explicando tudo direito…
ou corre para fechar um negócio que já está encaminhado?
No fim das contas, o sustento dele depende da venda.
E isso pesa.
Durante a feira, os números impressionam.
São milhões — às vezes bilhões — em pedidos.
Mas existe um problema que quase ninguém fala:
Grande parte disso não vira venda de verdade.
Um mesmo produtor faz vários pedidos do mesmo equipamento, em bancos diferentes.
Esses números entram na conta como “negócios gerados”, mas muitos deles nunca vão se concretizar.
Então a situação fica assim:
O produtor, que deveria aproveitar a feira com tranquilidade, acaba pressionado a assinar propostas.
As empresas gastam valores altos para participar — e não podem baixar o nível, porque a concorrência não baixa.
Os bancos acumulam propostas que muitas vezes nem serão aprovadas.
E aí fica a pergunta:
Quem realmente está ganhando com isso?
Muita gente pode pensar que são os organizadores.
Mas, sendo justo, eu também tenho minhas dúvidas.
Manter uma feira desse tamanho não é barato.
O espaço fica o ano inteiro praticamente parado, exigindo manutenção constante.
Infraestrutura, energia, água, banheiros, transporte, montagem… tudo custa caro.
Até uma feira se consolidar, quantos anos será que ela opera no prejuízo?
Se colocar esse mesmo dinheiro em outra atividade, será que não daria mais retorno?
Eu não duvido que exista lucro.
Mas também não acho que seja algo simples ou garantido.
E, mais do que lucro, existe o fator reconhecimento — fazer um evento grande, bonito, respeitado.
Só que, no meio disso tudo, parece que o principal se perdeu.
Depois de tantos anos vivendo isso de perto, a minha visão é clara:
As feiras perderam o rumo.
Hoje, é difícil encontrar alguém totalmente satisfeito dentro desse sistema.
Talvez — e só talvez — quem monta os stands.
O mais preocupante é o caminho que está sendo seguido.
Em anos mais difíceis, tanto produtores quanto empresas ficam com o caixa apertado.
E começa a surgir uma pergunta inevitável:
Vale mesmo a pena participar?
Porque já ficou provado que, mesmo em anos sem feira, as vendas continuam acontecendo.
Se nada mudar, o risco não é a feira perder público.
É começar a perder expositores.
E aí o problema fica sério.
Profissional com mais de 20 anos de experiência no setor agro, especializado em gestão comercial e desenvolvimento de estratégias de mercado. Com formação em Agronomia e MBA em Gestão Estratégica e Projetos, atuou como Gestor comercial e Gestor Comercial Corporativo, liderando equipes e impulsionando o mercado de máquinas agrícolas e sistemas de irrigação na Região de GO ,MG e DF. Há 2 anos criou a TERRAVOX, com o intuito de oferecer consultoria estratégica no mercado de máquinas agrícolas, garantindo soluções eficazes para produtores rurais. Sua trajetória sempre foi marcada pela construção de relações baseadas na confiança e resultado. Hoje considera que a TERRAVOX é a maior referência regional no segmento de estratégia, gestão e inteligência de mercado de máquinas agrícolas.
*As ideias e opiniões expressas nos artigos são de exclusiva responsabilidade de seus autores, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Portal Radar Digital Brasília.

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