BRASÍLIA

Opinião

Desafios da Reforma Tributária Brasileira

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Fotos – Andreia Tarelow

A Reforma Tributária brasileira (EC 132/2023 e LC 214/2025) propõe substituir cinco tributos (PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS) por um IVA dual: CBS (federal) e IBS (estados/municípios), além do Imposto Seletivo. Apesar dos objetivos de simplificação, enfrenta desafios complexos.

Essa mudança exige um período de transição gradual e a regulamentação de diversos temas, como as alíquotas de referência, os regimes específicos para alguns setores, a partilha da arrecadação e a criação do Comitê Gestor. O sucesso da reforma dependerá da capacidade do governo em detalhar essas regras de forma clara e eficiente, garantindo a segurança jurídica e a adaptação de empresas e cidadãos ao novo sistema.

Vamos refletir sobre os principais problemas  e desafios da reforma tributária:

1. Implementação (2026-2032)
A transição de sete anos exige que as empresas operem dois sistemas simultaneamente. Há escassez de mão de obra qualificada e necessidade de grandes investimentos em tecnologia e adequação de ERPs (Enterprise Resource Planning, em português, Planejamento dos Recursos da Empresa). Empresas precisam mapear processos, identificar benefícios fiscais e planejar cuidadosamente a adaptação.

2. Setor de Serviços
Com alíquota de 26,5%, o setor pode ter aumento de até 96% na carga tributária. Representa 70% do PIB e 60% dos empregos formais, mas não conseguiu regime diferenciado. A folha de pagamento (maior custo) não gera créditos, criando desvantagem competitiva. Riscos incluem repasse de custos, redução da demanda e perda de competitividade internacional.

3. Conflitos Federativos
O Comitê Gestor do IBS (54 membros) enfrenta disputas entre a Confederação Nacional de Municípios (CNM) e a Frente Nacional de Prefeitos (FNP)  para representação municipal. Estados e municípios temem perda de autonomia fiscal. A mudança do regime de origem para destino pode gerar perdas de arrecadação. O financiamento inicial de R$ 600 milhões pela União gera preocupações sobre sustentabilidade.

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4. Guerra de Lobbies
O Agronegócio conquistou benefícios (isenção até R$ 3,6 mi, alíquota zero para 22 produtos), mas teme aumento de 5% para 28%. Onze setores obtiveram regimes diferenciados (saúde, educação, hotelaria), elevando a alíquota padrão para os demais. Cada exceção setorial contribui para aumentar a carga tributária dos outros setores.

5. Problemas Jurídicos
Superior Tribunal de Justiça projeta triplicação de processos (28.764 para 86.000). Incertezas sobre contencioso do IBS/CBS e harmonização entre CARF e Comitê Gestor. Lei Complementar com mais de 500 artigos aumenta a complexidade. Temas problemáticos incluem compensação de saldos credores de PIS, Cofins e ICMS, definição de base de cálculo e aplicação do Imposto Seletivo.

6 – Riscos Identificados

– Alíquota padrão entre 26,5% e 28% (uma das maiores do mundo)
– Descompasso entre decisões administrativas e judiciais
– Sobrecarga do Judiciário e insegurança jurídica
– Migração para economia informal
– Perda de competitividade internacional
– Complexidade adicional durante a transição.

Conclusão
O sucesso da reforma depende de superar disputas políticas, resistir à pressão por exceções e garantir regulamentação equilibrada. Exige grande esforço de adaptação empresarial, investimentos em tecnologia, qualificação profissional e governança técnica do Comitê Gestor. Com diálogo e transparência, é possível construir um sistema tributário mais justo e eficiente para todos os brasileiros.

Neste mar de complexidade que tem permeado a alteração de nosso sistema tributário tais meios não têm sido utilizados com a maestria e frequência.

A reforma tributária brasileira, embora busque simplificar o sistema, está imersa em um mar de complexidade e incertezas. A necessidade de uma longa transição, os impactos negativos sobre setores cruciais como o de serviços, os conflitos federativos e a pressão de lobbies criam um cenário que pode gerar mais problemas do que soluções. A falta de maestria e transparência na condução do processo sugere que, em vez de um futuro mais claro, a reforma pode trazer incalculáveis problemas para o ordenamento jurídico e a economia, reforçando a ideia de que, no Brasil, a incerteza permeia até mesmo o que está por vir.

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Com todo este universo de incertezas e problemas sequer podemos parafrasear o Conselheiro Acácio (personagem do romance “O Primo Basílio”, do escritor português Eça de Queirós) em sua célebre quota: “Pode acontecer de tudo, inclusive o nada “ vez que “o nada” é a única certeza que temos que definitivamente não ocorrerá nesta tão conturbada Reforma Tributária.

Na impossibilidade de parafrasear Acácio, ficamos com a célebre frase de Roberto Campos que afirmou: “No Brasil até o passado é incerto”. Muito embora nossa kafkaniana Reforma Tributária cá está para o futuro, trará inúmeros e incalculáveis problemas para o ordenamento jurídico com que hoje convivemos.

Fotos – Andreia Tarelow

Rogério Gandra da Silva Martins é sócio da Advocacia Gandra Martins, Especialista em Direito Tributário pelo CEU-Law-School, Juiz do Tribunal de Impostos e Taxas do Estado de São Paulo – TIT/SP (2006-2007)(2022-2025), Conselheiro do Conselho Superior de Direito da FECOMERCIO/SP, Diretor da CECOMERCIO, Integrante do Conselho Jurídico da FIESP, Conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional de São Paulo (2004-2006), Membro da Academia Paulista de Letras Jurídicas – APLJ, Membro da União dos Juristas de São Paulo – UJUCASP, Membro da Academia Internacional de Direito Econômico – AIDE, Assistente na Embaixada do Brasil na Bélgica (2004), Autor e Coordenador de diversos trabalhos e livros publicados em diversas áreas do Direito.

 

As ideias e opiniões expressas nos artigos são de exclusiva responsabilidade de seus autores, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Portal Radar Digital Brasília.

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Opinião

“O que ninguém fala sobre as feiras do agro”

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Minha sincera opinião sobre as feiras do agro

Há exatamente 20 anos, visitei pela primeira vez a maior feira do agro da América Latina. Eu tinha 22 anos e fiquei impressionado com tudo aquilo. A estrutura, a quantidade de empresas, o movimento de pessoas.

Em meio às ruas de chão batido, havia stands enormes, bem montados, com equipes completas — da recepção ao atendimento técnico. Para quem estava começando, era algo mágico. Um único dia não era suficiente para ver nem metade do que estava exposto.

No ano seguinte, voltei. Mas dessa vez, do outro lado — como expositor.

E o que mudou?

Tudo.

De lá pra cá, foram mais de 20 anos participando desse tipo de evento, praticamente todos os anos. E, sendo bem sincero, até hoje eu me faço a mesma pergunta:

Por que essas feiras não evoluíram?

E mais:
por que continuam replicando esse mesmo modelo pelo Brasil inteiro, em feiras regionais e até microrregionais?

Na teoria, o produtor rural — que é a peça mais importante do evento — deveria usar esse tempo para aprender, conhecer novas tecnologias, entender melhor máquinas, insumos, sementes e tudo que pode ajudar no seu crescimento.

Mas, na prática, não é isso que acontece.

As feiras viraram um grande balcão de negócios.

Existe uma pressão enorme por venda.
Pressão das fábricas, das revendas, dos bancos… e até da própria feira.

Tudo precisa justificar o investimento feito.

Os stands estão cada vez mais caros, mais sofisticados, cheios de detalhes que muitas vezes não refletem a realidade das empresas no dia a dia.

Enquanto isso, as máquinas ficam fechadas.

E não é por acaso. Existe um problema real: muita gente que nem é do setor entra nos equipamentos como se fossem brinquedos, aperta tudo, mexe em tudo — e isso acaba gerando prejuízo.

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Do lado de quem está vendendo, a situação também é complicada.

O vendedor fica dividido:

Atende com calma um possível cliente, explicando tudo direito…
ou corre para fechar um negócio que já está encaminhado?

No fim das contas, o sustento dele depende da venda.

E isso pesa.

Durante a feira, os números impressionam.

São milhões — às vezes bilhões — em pedidos.

Mas existe um problema que quase ninguém fala:

Grande parte disso não vira venda de verdade.

Um mesmo produtor faz vários pedidos do mesmo equipamento, em bancos diferentes.
Esses números entram na conta como “negócios gerados”, mas muitos deles nunca vão se concretizar.

Então a situação fica assim:

O produtor, que deveria aproveitar a feira com tranquilidade, acaba pressionado a assinar propostas.

As empresas gastam valores altos para participar — e não podem baixar o nível, porque a concorrência não baixa.

Os bancos acumulam propostas que muitas vezes nem serão aprovadas.

E aí fica a pergunta:

Quem realmente está ganhando com isso?

Muita gente pode pensar que são os organizadores.

Mas, sendo justo, eu também tenho minhas dúvidas.

Manter uma feira desse tamanho não é barato.

O espaço fica o ano inteiro praticamente parado, exigindo manutenção constante.
Infraestrutura, energia, água, banheiros, transporte, montagem… tudo custa caro.

Até uma feira se consolidar, quantos anos será que ela opera no prejuízo?

Se colocar esse mesmo dinheiro em outra atividade, será que não daria mais retorno?

Eu não duvido que exista lucro.
Mas também não acho que seja algo simples ou garantido.

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E, mais do que lucro, existe o fator reconhecimento — fazer um evento grande, bonito, respeitado.

Só que, no meio disso tudo, parece que o principal se perdeu.

Depois de tantos anos vivendo isso de perto, a minha visão é clara:

As feiras perderam o rumo.

Hoje, é difícil encontrar alguém totalmente satisfeito dentro desse sistema.

Talvez — e só talvez — quem monta os stands.

O mais preocupante é o caminho que está sendo seguido.

Em anos mais difíceis, tanto produtores quanto empresas ficam com o caixa apertado.
E começa a surgir uma pergunta inevitável:

Vale mesmo a pena participar?

Porque já ficou provado que, mesmo em anos sem feira, as vendas continuam acontecendo.

Se nada mudar, o risco não é a feira perder público.

É começar a perder expositores.

E aí o problema fica sério.

 

Profissional com mais de 20 anos de experiência no setor agro, especializado em gestão comercial e desenvolvimento de estratégias de mercado. Com formação em Agronomia e MBA em Gestão Estratégica e Projetos, atuou como Gestor comercial e Gestor Comercial Corporativo, liderando equipes e impulsionando o mercado de máquinas agrícolas e sistemas de irrigação na Região de GO ,MG e DF.  Há 2 anos criou a TERRAVOX, com o intuito de oferecer consultoria estratégica no mercado de máquinas agrícolas, garantindo soluções eficazes para produtores rurais. Sua trajetória sempre foi marcada pela construção de relações baseadas na confiança e resultado. Hoje considera que a TERRAVOX é a maior referência regional no segmento de estratégia, gestão e inteligência de mercado de máquinas agrícolas.

 

 

 

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