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Experiências de quase-morte revelam lacuna na psiquiatria e pedem leitura mais ampla da consciência

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Para a psiquiatra Thaíssa Pandolfi, especialista em neurodivergência, superdotação e emergências espirituais, relatos exibidos em grande reportagem na TV evidenciam a necessidade de mais preparo clínico e rigor científico

Após uma grande reportagem exibida na televisão brasileira trazer relatos de pessoas que passaram por experiências de quase-morte, o tema ganhou novo fôlego e passou a ocupar espaço também fora dos consultórios e da academia. Os depoimentos chamaram atenção não apenas pelo impacto emocional, mas pelas perguntas que permanecem sem resposta definitiva.

A psiquiatra Thaíssa Pandolfi, que atua na interface entre neurodivergência, espiritualidade e saúde mental, aponta que ainda há uma limitação importante na forma como essas experiências são interpretadas. “Há um vício antigo na cobertura jornalística das experiências de quase-morte, e ele se repetiu agora: tratar explicação científica como sinônimo de explicação cerebral materialista. Como se quem investiga a consciência fora do paradigma reducionista estivesse fazendo misticismo. Não é. Ciência não é compromisso ontológico com o materialismo. Ciência é método”, afirma.

Segundo ela, existe produção acadêmica robusta, desenvolvida ao longo de décadas em diferentes países, que investiga o fenômeno com rigor. Parte desses estudos indica limites nas explicações exclusivamente biológicas, principalmente em situações em que pacientes relatam percepções confirmadas posteriormente, mesmo durante períodos críticos de atividade cerebral.

Pandolfi chama atenção para um recorte ainda pouco observado no Brasil: o impacto dessas experiências em perfis neurobiológicos específicos. “O que acontece quando uma experiência de quase-morte ocorre em uma mulher altamente sensível, autista, superdotada ou com sobre excitabilidades? Essas pessoas têm um processamento mais profundo e uma permeabilidade maior a estados não ordinários de consciência. Quando passam por algo assim, a vivência tende a ser mais intensa e, muitas vezes, mais difícil de integrar sem acompanhamento adequado.”

Na prática, isso se reflete em um problema recorrente. Muitas dessas mulheres acabam sendo interpretadas de forma equivocada dentro da psiquiatria tradicional. “Elas são frequentemente rotuladas com psicose, transtorno de personalidade borderline ou quadros dissociativos. Recebem medicação pesada quando o que precisavam era acolhimento e escuta qualificada. O resultado é o silenciamento de uma experiência que poderia reorganizar a própria biografia.”

A especialista destaca que já existem categorias reconhecidas nos manuais diagnósticos para lidar com esse tipo de vivência, mas ainda falta preparo para utilizá-las com precisão. “A categoria ‘problema religioso ou espiritual’ está prevista. O que não existe de forma ampla é formação para diferenciar uma emergência espiritual de um surto psicótico, ou uma experiência de quase-morte bem integrada de um quadro dissociativo.”

Ela reforça que a avaliação clínica precisa considerar efeitos mais amplos ao longo do tempo. “A análise passa pelos frutos. Houve mais integração ou mais fragmentação? A pessoa mantém senso crítico? A experiência trouxe sentido ou gerou caos interno? Existem instrumentos validados para isso. O que falta é capacitação.”

Para Pandolfi, há um caminho possível entre a medicalização excessiva e a leitura simplista dessas vivências. “Existe um terceiro caminho, com base técnica, que integra ciência e experiência subjetiva. O desafio agora é ampliar essa linguagem dentro da prática clínica no Brasil”.

Ao final, ela destaca que o impacto dessas experiências não se encerra no momento em que acontecem. “Nossas pacientes, em sua maioria mulheres, chegam depois dessas vivências profundamente transformadas. Elas merecem mais do que rótulos. Merecem compreensão, preparo clínico e respeito pela complexidade do que viveram”.

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Nova jornada de trabalho avança no Congresso e acende alerta no setor de serviços

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Febrac aponta riscos de aumento de custos, pressão sobre empregos e impacto na oferta de serviços essenciais 

A decisão da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados de admitir a proposta de emenda à Constituição (PECs) que altera a jornada de trabalho no país trouxe novo fôlego ao debate sobre o fim da escala 6×1, modelo em que se trabalha seis dias para um de descanso. A proposta segue agora para análise em comissão especial antes de ser votada em Plenário.

A medida, embora vista por parte da sociedade como um avanço nas relações de trabalho, gera apreensão em setores intensivos em mão de obra, como o de serviços. A Federação Nacional das Empresas Prestadoras de Serviços de Limpeza e Conservação (Febrac) avalia que mudanças dessa natureza exigem planejamento cuidadoso para evitar efeitos colaterais na economia e no mercado de trabalho.

Responsável por uma parcela significativa da geração de empregos formais no Brasil, o setor de serviços mantém operações contínuas em áreas como limpeza, conservação, facilities e apoio administrativo. Dados recentes do Novo Caged mostram que, entre janeiro e julho de 2025, o segmento criou mais de 80 mil vagas com carteira assinada, evidenciando seu papel estratégico.

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Na avaliação da entidade, a redução da jornada sem ajuste proporcional de salários tende a elevar os custos operacionais. Em atividades que não podem ser interrompidas como hospitais, escolas, aeroportos e edifícios públicos, a alternativa seria ampliar equipes para cobrir a nova carga horária, o que pressionaria contratos e orçamentos. Em alguns casos, o aumento pode ultrapassar dois dígitos.

O presidente da Febrac, Edmilson Pereira, afirma que o tema precisa ser tratado com equilíbrio. “É uma discussão legítima, mas não pode ser conduzida de forma apressada. Sem um período de adaptação e sem instrumentos que compensem o aumento de custos, como a redução de encargos, o risco é gerar efeitos contrários ao desejado, incluindo a diminuição de postos formais”, avalia.

Outro ponto levantado pela Febrac diz respeito ao ambiente tributário brasileiro, que já impõe elevada carga sobre a folha de pagamento. Nesse contexto, qualquer mudança que aumente o custo da mão de obra tende a ser repassada, direta ou indiretamente, para a economia, seja por meio de reajustes de contratos, seja pela redução da capacidade de contratação das empresas.

A entidade defende que eventuais alterações na legislação trabalhista sejam implementadas de forma gradual, com previsibilidade e participação do poder público na construção de soluções. O objetivo, segundo a Febrac, deve ser conciliar avanços nas condições de trabalho com a sustentabilidade das empresas e a preservação dos empregos.

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Com a tramitação das propostas em andamento, o tema deve ganhar protagonismo no Congresso e ampliar o debate entre governo, setor produtivo e representantes dos trabalhadores nos próximos meses.

Sobre a Febrac – A Federação Nacional das Empresas Prestadoras de Serviços de Limpeza e Conservação (Febrac) foi criada para representar os interesses dos setores de serviços de Asseio e Conservação. Hoje, representa 12 setores ligados à terceirização de mão de obra especializada.

Com sede em Brasília, a federação agrega sindicatos nas 27 unidades federativas do país e ocupa cargos na Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), nos Conselhos Nacionais do SESC e do SENAC, na Central Brasileira de Apoio ao Setor de Serviços (CEBRASSE) e na Câmara Brasileira de Serviços Terceirizáveis e na World Federation of Building Service Contractors (WFBSC). A Febrac tem como objetivo cuidar, organizar, defender e zelar pela organização das atividades por ela representadas.

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