Feliz Hoje...
A delicada coragem de continuar…
Há dias em que temos absoluta certeza do que precisamos fazer. Sabemos que deveríamos cuidar melhor de nós mesmos, silenciar um pouco a mente, retomar uma prática que nos fazia bem, cumprir uma decisão importante ou simplesmente permanecer firmes diante de uma situação difícil.
Sabemos o que precisamos fazer, mas nem sempre conseguimos fazer.
Às vezes falta energia. Em outros momentos, falta vontade. Há dias em que a tristeza aparece sem pedir licença. Em outros, somos tomados pela dúvida, pelo cansaço ou pela sensação de que talvez seja melhor deixar tudo para depois.
E o “depois” parece tão convincente.
“Hoje não.”
“Amanhã eu faço.”
“Quando estiver melhor, eu volto.”
“Agora não é um bom momento.”
Assim, pouco a pouco, aquilo que era importante para nós vai sendo adiado. Até que surge uma pergunta que talvez valha a pena fazer: o que acontece com nossos propósitos quando a motivação desaparece?
Nem todos os dias serão inspiradores
Vivemos em uma cultura que fala muito sobre motivação. Precisamos estar motivados para trabalhar, estudar, cuidar do corpo, mudar hábitos, desenvolver projetos e realizar nossos sonhos. O problema é que a motivação é uma visitante inconstante. Ela chega, nos entusiasma, faz tudo parecer possível e, em algum momento, vai embora.
Esperar que ela esteja presente todos os dias é uma maneira bastante frágil de construir qualquer transformação.
Há momentos em que vamos precisar continuar mesmo sem entusiasmo. Não por obrigação cega ou por uma necessidade de nos cobrarmos constantemente, mas porque algumas coisas importantes precisam sobreviver às oscilações do nosso humor.
É aí que entra a disciplina.
Disciplina não é dureza
Quando ouvimos a palavra disciplina, muitas vezes imaginamos rigidez, cobrança e sacrifício. Mas talvez exista outra maneira de compreendê-la.
Disciplina pode ser simplesmente um compromisso que fazemos com aquilo que consideramos importante.
É decidir que determinada coisa merece um lugar na nossa vida e tentar protegê-la, inclusive nos dias em que não estamos tão dispostos.
Pode ser reservar alguns minutos para meditar, ler, estudar, escrever, caminhar, fazer uma oração, permanecer em silêncio ou cuidar de uma prática espiritual. Pode ser, ainda, simplesmente cumprir uma pequena promessa feita a nós mesmos.
Não precisamos transformar tudo em uma grande cerimônia. Às vezes, cinco minutos de presença valem mais do que uma hora de intenção que nunca sai do pensamento.
A mente também se cansa
Nossa mente é extraordinária, mas não é uma bússola perfeita. Ela muda de opinião, cria medos, amplia problemas, recorda fracassos, inventa possibilidades e questiona decisões.
Em um momento, podemos estar completamente convencidos de que estamos no caminho certo. Pouco depois, uma dificuldade pode nos fazer duvidar de tudo.
Isso não significa necessariamente que tenhamos escolhido o caminho errado. Significa apenas que somos humanos.
Por isso, talvez seja importante aprender a observar nossos pensamentos sem transformar cada pensamento em uma verdade. Nem tudo aquilo que pensamos precisa ser obedecido. Nem toda vontade precisa se transformar em ação. Nem toda dúvida precisa determinar uma decisão.
Existe uma diferença enorme entre escutar a própria mente e ser governado por ela.
Permanecer também é uma escolha
Existem momentos em que precisamos mudar. De ideia, de caminho, de relacionamento, de trabalho ou de projeto. Persistência não significa permanecer em qualquer situação apenas porque um dia decidimos ficar.
Também não significa abandonar tudo sempre que alguma coisa se torna difícil.
Precisamos aprender a distinguir desistência de mudança consciente.
Às vezes, parar é sabedoria. Em outras situações, parar é apenas uma reação ao desconforto daquele momento. E como saber a diferença?
Talvez seja necessário silêncio, tempo, autoconhecimento e honestidade conosco.
Quando conseguimos observar nossas emoções sem agir imediatamente sobre elas, abrimos espaço para escolhas mais conscientes.
O retorno também faz parte do caminho
Existe uma ideia perigosa de que, uma vez que começamos alguma coisa, precisamos fazê-la perfeitamente. Se perdemos um dia de exercício, abandonamos o projeto. Se deixamos de meditar durante uma semana, concluímos que não conseguimos manter uma prática. Se falhamos em uma decisão, acreditamos que todo o esforço anterior perdeu o sentido.
Mas a vida não funciona assim.
Você pode parar e voltar. Pode errar e tentar novamente. Pode atravessar um período difícil e depois recuperar aquilo que deixou de lado.
Um intervalo não precisa significar um abandono definitivo.
Talvez uma das formas mais bonitas de disciplina seja justamente saber retornar.
Voltar para aquilo que nos faz bem. Voltar para nossos valores. Voltar para nossa essência. Voltar para nós mesmos.
A espiritualidade também pode ensinar sobre permanência
Para quem possui uma prática espiritual, esse aprendizado pode assumir diferentes formas. Pode estar na meditação, na oração, na contemplação, no silêncio, na leitura, no serviço, na conexão com a natureza ou simplesmente na tentativa diária de viver de maneira mais consciente.
Mas acredito que exista uma dimensão espiritual que também pode ser encontrada nas pequenas escolhas cotidianas.
Quando decidimos não alimentar um pensamento que nos destrói. Quando escolhemos responder com serenidade em vez de reagir impulsivamente. Quando conseguimos perdoar. Quando reconhecemos que precisamos de ajuda. Quando paramos para ouvir aquilo que sentimos. Quando escolhemos continuar sendo gentis mesmo depois de um dia difícil.
Talvez espiritualidade também seja isso: uma maneira de construir presença no meio do caos.
Não transforme uma queda em uma identidade
Todos nós vamos falhar em algum momento. Vamos perder a paciência, procrastinar, tomar decisões equivocadas, perder o entusiasmo ou simplesmente não conseguir fazer aquilo que havíamos planejado.
Tudo bem.
Uma queda não precisa se transformar em uma sentença.
Você não é o seu pior dia. Não é o seu erro. Não é a sua falta de motivação. Não é o período difícil que está atravessando.
Existe uma diferença entre reconhecer uma dificuldade e transformar essa dificuldade em uma definição sobre quem somos.
Talvez seja possível dizer: “Hoje eu não consegui.”
Sem concluir: “Eu nunca vou conseguir.”
Continuar não significa correr
Às vezes, continuar será avançar. Em outras ocasiões, será descansar. Pode ser pedir ajuda, mudar a estratégia, esperar ou começar novamente.
Continuar não significa necessariamente fazer mais. Significa não perder completamente a conexão com aquilo que é importante para nós.
E talvez seja justamente essa uma das formas mais bonitas de disciplina: não exigir perfeição, mas cultivar presença.
Um pouco hoje. Outro pouco amanhã. Um retorno depois de uma pausa. Uma nova tentativa depois de um erro. Uma pequena escolha repetida tantas vezes que, um dia, deixa de parecer esforço e passa a fazer parte de quem somos.
Não precisamos vencer todos os dias.
Precisamos aprender a não abandonar a nós mesmos nos dias em que não conseguimos vencer.
Porque talvez a verdadeira força não esteja em nunca cair. Talvez esteja em olhar para a queda, respirar fundo e perguntar:
“O que agora precisa ser feito para que eu possa continuar?”
E então se levantar…Sem pressa…Sem culpa…
Sem a necessidade de provar nada a ninguém.
Apenas continuar.
Por Giorgia Barreto
Educadora, comunicadora, artista visual e terapeuta
Porque perseverar não é caminhar sem tropeçar, mas aprender a retornar ao nosso caminho sempre que a vida nos fizer perder o passo.
Feliz Hoje...
Quando acolher o que é abre caminho para o que pode ser
Published
3 horas atráson
16 de agosto de 2026
Você já desejou profundamente que sua vida fosse diferente? Talvez exista um projeto que ainda não saiu do papel, um relacionamento que você gostaria que tivesse tomado outro rumo, um trabalho que já não faça sentido ou um sonho que continua guardado em algum lugar dentro de você. Talvez exista apenas aquela sensação incômoda de que a vida que você está vivendo hoje não corresponde àquilo que imaginou para si.
Quando percebemos essa distância entre o que somos e o que gostaríamos de ser, é comum surgir a frustração. Começamos a olhar para o presente como se ele fosse um erro e passamos a pensar no que deveria ter acontecido, no que não aconteceu, no que perdemos e no tempo que passou. Sem perceber, podemos transformar a própria vida em uma batalha permanente contra a realidade.
Mas talvez exista outro caminho: acolher o ponto em que estamos.
E, antes que você pense que estou falando em se conformar, deixe-me explicar.
Aceitar não é desistir
Existe uma diferença enorme entre aceitação e acomodação. Acomodar-se é abandonar a possibilidade de mudança porque acreditamos que não vale mais a pena tentar. Aceitar é reconhecer honestamente onde estamos, sem precisar fingir que tudo está bem, mas também sem transformar aquilo que não está bem em uma sentença definitiva.
É conseguir dizer: “É aqui que estou.”
Não para permanecer aqui para sempre, mas para descobrir, com mais clareza, para onde queremos ir.
É muito difícil transformar aquilo que não conseguimos enxergar. Às vezes, passamos tanto tempo negando o que sentimos que gastamos toda a nossa energia tentando sustentar uma realidade que já não existe.
A aceitação interrompe essa luta. Ela nos permite deixar de perguntar apenas por que a vida não está acontecendo como imaginamos e começar a perguntar:
“O que posso fazer a partir daqui?”
O presente não precisa ser perfeito para ser vivido
Talvez você esteja atravessando uma fase que não escolheu. Uma perda, uma mudança, uma dificuldade financeira, uma frustração profissional, o fim de um relacionamento ou uma espera que parece não ter fim.
Aceitar essa realidade não significa gostar dela. Também não significa considerar justo aquilo que aconteceu. Significa reconhecer que aconteceu.
E existe uma força enorme nesse reconhecimento.
Enquanto lutamos internamente contra aquilo que já está posto, ficamos presos ao passado. Quando aceitamos a realidade, começamos a recuperar energia para construir o próximo passo.
É como tentar nadar contra uma correnteza. Podemos passar horas usando toda a nossa força apenas para permanecer praticamente no mesmo lugar. Quando percebemos a direção da água, talvez possamos escolher outro movimento.
A aceitação não muda necessariamente a correnteza.
Mas pode mudar a maneira como navegamos.
E os nossos sonhos?
Aceitar o presente não significa abandonar nossos sonhos. Muito pelo contrário. Às vezes, é justamente quando deixamos de lutar desesperadamente contra o presente que conseguimos olhar para o futuro com mais clareza.
Podemos continuar desejando, planejando, criando, estudando, tentando e recomeçando, mas sem transformar o sonho em uma exigência de que tudo aconteça exatamente como imaginamos.
A vida raramente segue nossos roteiros. E talvez isso não seja necessariamente ruim.
Existem caminhos que ainda não conhecemos, pessoas que ainda não encontramos e possibilidades que ainda não conseguimos imaginar. Nem tudo aquilo que desejamos acontecerá da maneira que esperamos, e aprender a lidar com isso também faz parte do amadurecimento.
Às vezes, a vida não entrega exatamente aquilo que pedimos, mas nos coloca diante de possibilidades que jamais teríamos considerado.
Quando a frustração toma conta
Frustração faz parte da vida. Todos nós já desejamos alguma coisa que não aconteceu. O problema começa quando uma frustração deixa de ser uma experiência e passa a definir nossa identidade.
“Eu fracassei.”
“Minha vida não deu certo.”
“É tarde demais.”
“Eu nunca vou conseguir.”
São pensamentos que podem aparecer quando estamos machucados, mas pensamentos não são necessariamente fatos.
Uma situação difícil não resume uma existência inteira. Um projeto que não deu certo não significa que você seja incapaz. Um relacionamento que terminou não significa que você não seja digno de amor. Uma oportunidade perdida não significa que todas as portas tenham se fechado.
Às vezes, precisamos apenas parar de transformar um capítulo difícil em uma história completa.
Aceitar também é acolher quem somos hoje
Existe uma cobrança silenciosa para que sejamos sempre melhores: mais produtivos, mais bonitos, mais bem-sucedidos, mais organizados, mais felizes. Como se a pessoa que somos hoje fosse apenas uma versão provisória que precisa ser rapidamente substituída por uma versão melhor.
Mas e se, por alguns instantes, pudéssemos olhar para nós mesmos com mais gentileza?
Você fez o melhor que conseguiu com os recursos que tinha naquele momento. Talvez hoje saiba coisas que não sabia antes. Talvez tenha amadurecido. Talvez tenha errado. Talvez ainda esteja tentando descobrir quem é.
Tudo isso faz parte.
Aceitar quem somos hoje não significa deixar de desejar crescimento. Significa não precisar odiar a pessoa que somos agora para nos tornarmos quem desejamos ser.
A mudança começa quando paramos de fugir de nós mesmos
Talvez essa seja uma das grandes contradições da vida. Queremos mudar, mas muitas vezes não conseguimos aceitar o ponto de partida.
Queremos uma vida diferente, mas não queremos olhar para aquilo que precisa ser transformado. Queremos novos relacionamentos, mas não queremos reconhecer nossos padrões. Queremos novas oportunidades, mas não queremos admitir nossos medos. Queremos paz, mas continuamos alimentando conflitos internos.
A aceitação cria espaço.
Espaço para perceber, compreender, escolher e mudar.
E talvez seja por isso que ela seja tão poderosa. Não porque tenha o poder mágico de transformar imediatamente aquilo que desejamos, mas porque nos devolve algo fundamental: a possibilidade de agir conscientemente sobre a própria vida.
O que está sob seu controle?
Talvez você não possa mudar o passado. Não possa controlar o comportamento de outra pessoa, decidir quando uma oportunidade surgirá ou impedir todas as perdas. Também não pode garantir que seus planos acontecerão exatamente como imaginou.
Mas pode escolher algumas coisas.
Pode escolher como responder. Onde colocar sua energia. Quais relações deseja cultivar. Pode buscar ajuda, aprender, mudar de direção, começar novamente, cuidar de si e dar um pequeno passo.
Talvez seja disso que a transformação realmente precise.
Não de uma grande revolução de um dia para o outro, mas de pequenas escolhas conscientes repetidas ao longo do tempo.
Acolher o presente não significa dizer: “Minha vida será sempre assim.”
Significa dizer:
“Esta é a realidade que tenho diante de mim hoje. E, a partir dela, posso escolher o próximo passo.”
Talvez você ainda não esteja onde gostaria de estar. Tudo bem. Talvez o sonho ainda esteja distante. Tudo bem, também.
Você não precisa transformar a sua vida inteira hoje.
Comece olhando para ela com honestidade. Sem negar, sem romantizar e sem se punir. Reconheça o ponto em que está. Respire. Observe. E então pergunte a si mesmo:
“O que posso fazer, a partir daqui, para me aproximar da vida que desejo viver?”
Talvez a resposta não venha imediatamente. Talvez precise de tempo. Mas quando deixamos de gastar toda a nossa energia desejando estar em outro lugar, começamos finalmente a ter energia para caminhar.
E talvez esse seja o verdadeiro sentido da aceitação:
não desistir do que pode ser, mas fazer as pazes com aquilo que é.
Por Giorgia Barreto
Educadora, comunicadora, artista visual e terapeuta
Porque talvez acolher o presente não seja renunciar aos nossos sonhos, mas encontrar, dentro da realidade de hoje, o primeiro caminho possível para chegar até eles.

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